MUSEUS DE CIÊNCIA SOB AMEAÇA

ABCMC denuncia esvaziamento das políticas de popularização da Ciência

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A Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciência (ABCMC) encaminhou, na semana passada, uma carta ao ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Gilberto Kassab, para alertar sobre o abandono dos projetos de popularização da ciência no País. O documento denuncia a ausência de editais de financiamento e o sucateamento dos Museus de Ciência.

Para o presidente da Associação, José Ribamar Ferreira, este é o momento dos Museus se fazerem ouvir pela sociedade. “A população já tem a consciência da importância da educação formal. Mas a popularização da ciência precisa ser incluída no imaginário público como um caminho fundamental para o conhecimento. Assim podemos reforçar a luta por políticas voltadas a essa área”, diz Ribamar.

Segundo ele, o esvaziamento das políticas de financiamento dos centros de divulgação científica tem como marco o ano de 2013. “Dos R$ 20 milhões previstos no edital nº 85/2013 – Apoio à Criação e ao Desenvolvimento de Centros e Museus de Ciência e Tecnologia, mais da metade não foi liberada até hoje”, informa o presidente da ABCMC. Desde então, nenhum outro edital do tipo foi lançado.

A preocupação aumenta diante do cenário atual. O Ministério de Ciência e Tecnologia fundiu-se com o Ministério das Comunicações. A antiga Secretaria de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social e o Departamento de Popularização e Difusão de Ciência e Tecnologia foram rebaixados para uma diretoria e coordenação, o que acarreta redução de recursos. Não há perspectiva de lançamento de novos editais.

MuseuBA_fechadoMUSEUS EXTINTOS – Sem apoio, vários museus estão fechando as portas ou se mantendo de forma precária. É o caso da Estação Ciência (USP) e do Museu de Ciência e Tecnologia da Bahia.

O MCT da Bahia é histórico. Foi o primeiro museu interativo de ciência do Brasil, criado apenas dez anos depois da fundação do Exploratorium, na California, que na época revolucionou o conceito de divulgação e ensino de Ciência.

Fechado para visitação de escolares desde 2010, devido a uma reforma nos cabos que sustentam o teto, o museu foi perdendo ao longo dos anos o seu objetivo inicial. Em 2013, um decreto estadual determinou a transferência de titularidade administrativa do Museu para a Secretaria de Ciência, Tecnologia & Inovação.

Em São Paulo,  a Estação Ciência, criada em 1987, recebia cerca de 300 mil visitantes ao ano. Foi fechada para visitação pública em 2013 e, no ano passado, a USP transferiu o conteúdo expositivo para outros espaços da universidade e devolveu  ao governo do estado, que é proprietário do prédio, o edifício que abrigava a unidade.

No final do ano passado, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul aprovou o projeto, de 2015, de extinção da Fundação Zoobotânica do estado, que gerenciava o Museu de Ciências Naturais, o Jardim Botânico e o Parque Zoológico.

ABANDONO – Outros espaços vem sofrendo ameaça de extinção, a exemplo do Planetário, Escola da Ciência e Praça da Ciência, em Vitória (ES).

Alguns vêm funcionando de forma precária. O Museu Ciência e Vida, do Rio de Janeiro, por exemplo, vem reduzindo o número de exposições e atividades e os horários de funcionamento por conta dos sucessivos cortes nos recursos.

DSCN4814Em Pernambuco, o Espaço Ciência, entre outras dificuldades, está tendo que organizar a Ciência Jovem – Feira Internacional de Ciência com menos da metade do orçamento obtido no ano passado.

“A impressão que dá é que os cortes nos recursos são feitos de forma cirúrgica para atingir alguns setores da educação. Afinal, quem detém o conhecimento detém o poder. E talvez não seja interessante para os governantes popularizar a ciência e ter um povo instruído”,  critica o diretor do Espaço Ciência, Antonio Carlos Pavão.

Segundo Pavão, até 2012, o Brasil vinha vivendo um cenário favorável nas áreas de divulgação científica e educação não formal de ciências, fruto das políticas públicas voltadas à inclusão social. Editais voltados à popularização da Ciência foram lançados pelo então Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, junto com órgãos como CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), Academia Brasileira de Ciências, empresas do setor privado e fundações estaduais de Amparo à Pesquisa.

Os guias de Centros e Museus de Ciência no Brasil, coordenados pela ABCMC, revelam este cenário positivo: 110 instituições em 2005, 190 em 2009 e 268 em 2015. “Apesar do crescimento dos números, há muito que avançar. Algumas capitais não têm sequer um Museu de Ciência de porte para atender a população e funcionar como centro propulsor da popularização da ciência nestes estados”, revela Ribamar Ferreira.

Ele alerta para o papel estratégico da divulgação e popularização da ciência, que vem sendo apontado em todas as Conferências Nacionais de Ciência e Tecnologia realizadas nos últimos 15 anos. “A socialização da cultura científica é determinante para a formação cidadã e para o crescimento da produção científica e tecnológica do país”, diz o presidente da ABCMC.

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