PEGA NA MENTIRA!

Neste 1º de abril, que tal falarmos sobre Ciência e “fake News”?

Primeiro de abril é considerado o Dia da Mentira. É quando se fazem brincadeiras e trotes, e se inventam histórias para enganar amigos. Dizem que a brincadeira surgiu na França, no século XVI, quando uma mudança no calendário modificou as festas de ano novo. Ao invés de ser comemorado com a chegada da primavera, entre março e abril, o ano novo passou a ser  celebrado em janeiro. E, para aqueles que se recusaram a seguir o novo calendário, os colegas passavam trotes enviando convites para festas inexistentes no início de abril.

“Independente da origem do Dia da Mentira, aqui no Brasil a gente pode associar a data ao início da ditadura militar, uma época de verdade sufocada e muita mentira”, opina o diretor do Espaço Ciência, Museu Interativo de Ciência de Pernambuco, Antonio Carlos Pavão.

Seja qual for a explicação para a data, o dia 1º de abril é propício para refletir sobre mentira e Ciência e sobre a forma como as notícias falsas, ou “fake news” afetam o conhecimento científico, sobretudo em tempos de medo, isolamento e pandemia.

BEBENDO SODA CÁUSTICA – Nos últimos dias, uma notícia circulou em grupos de WhatsApp e redes sociais. O texto, atribuído a uma Revista de Virologia, afirma: “Tudo o que precisamos fazer, para vencer o vírus corona, precisamos ingerir mais alimentos alcalinos que estão acima do nível de pH acima do vírus (SIC)”. Em seguida, são citados alguns alimentos, com aquilo que seria o pH de cada um. Por fim, o texto solicita: “Não guarde essas informações apenas para si mesmo. Passe para todos”.

Uma olhada cuidadosa no texto seria suficiente para desconfiar da tal “pesquisa”. Ao abacate, por exemplo, é atribuído um pH de 15,6, ou seja, maior que o pH de uma Soda Cáustica do tipo “Diabo Verde” ou dos alvejantes. Alguém, por acaso, acreditaria ser saudável beber água sanitária ou soda cáustica para combater o Coronavírus? No entanto, muita gente compartilhou a informação.

Desde o início da pandemia, não faltaram notícias falsas disseminadas pela Internet e que atrapalham o controle da doença. É o caso dos textos que afirmam que ingerir líquidos quentes mataria o Coronavírus; que uma vacina teria sido descoberta (em Cuba, na Alemanha, ou em diferentes outros países); que o vírus teria sido criado propositalmente pela China para derrubar as bolsas de ações e que o governo chinês teria tido lucros imensos com esta operação; ou que prender a respiração por 10 segundos indicaria se você tem a doença…

Quem faz uso de redes sociais, principalmente WhatsApp, já deve ter recebido ao menos uma destas falsas informações. A pergunta é: por que elas surgem? Que objetivo tem os disseminadores de notícias mentirosas? E mais: por que elas se propagam? O que faz com que pessoas, até mesmo esclarecidas, acreditem nelas?

POR TRÁS DAS MENTIRAS – Por trás do surgimento dos sites e notícias falsas pode haver diferentes motivações: monetárias, ideológicas, políticas, morais. Por trás das tentativas de desqualificar argumentos científicos sobre aquecimento global, por exemplo, há interesses financeiros de grandes corporações. Por trás da disseminação de notícias sensacionalistas e falsas, o interesse pode ser garantir compartilhamento e, portanto, retorno monetário.  Por trás de notícias sobre vacinas salvadoras ou culpados pelos vírus, o interesse pode ser garantir prestígio ou, pelo contrário, descrédito a determinados países e suas ideologias.

Para o diretor da Universidade de Pretória (África do Sul), Tawana Kupe, a perda da confiança nas instituições, inclusive midiáticas e científicas, é outro fator que embasa o surgimento das falsas notícias.

Em comunicado reproduzido na Revista Galileu em 29/03/2019, ele ressalta que “a falsidade tem crescido para preencher um vazio, dirigido por indivíduos e organizações políticas que posicionam elas mesmas como messias com soluções instantâneas para múltiplas crises sociais. No discurso delas, instituições, ciência, fatos, evidência, razão ou racionalidade são dispensados como sofisticação da elite“.

DEMOCRACIA? – Tais ideias encontram um terreno fértil no mundo democrático da Internet, em que as informações podem circular livremente. Mas até que ponto este mundo seria de fato tão democrático?

Em artigo publicado em 14/01/2019, na Revista Ciência Hoje, o sociólogo Yurij Castelfranchi (UFMG), traz à tona uma questão importante: na Internet, existem algoritmos,  criados para facilitar nossas escolhas online e acesso à informação, que podem acabar selecionando informações provenientes de poucas fontes. Ou seja: quem acessa notícias sensacionalistas, ou de apenas um campo político, corre o risco de entrar em “bolhas” com altas dose de notícias falsas e boatos, sem ter acesso a outras versões.

Além disso, segundo ele, um grupo de pesquisadores “estudou 126 mil histórias circuladas na plataforma Twitter ao longo de um ano, para compreender quais aspectos das fake news levam ao compartilhamento maciço. Descobriu-se que os humanos contribuem para a difusão de notícias falsas tanto quanto os sistemas automáticos (bots), devido a fatores emocionais: as notícias falsas tendem a parecer mais surpreendentes do que as verdadeiras, e também mais revoltantes ou assustadoras”.

FAZER O QUÊ? – A dica final fica por conta deste sociólogo mineiro,  Yurij Castelfranchi, em seu artigo na Ciência Hoje: “Ressalto a necessidade de sermos céticos, qualidade crucial para bons jornalistas, bons educadores, bons cientistas e, em geral, para os cidadãos de uma sociedade aberta. E precisamos ser mais que céticos diante de estatísticas, experimentos ou fatos que nos deixam indignados, preocupados, entusiasmados, porque confirmam nossas visões e crenças, confortam nossa raiva, legitimam nossas batalhas. Afinal, as fake news que são construídas para nos tocar, para fortalecer nossos preconceitos, são as que compartilhamos sem hesitar, e não pensamos em checar”.

LEIA O ARTIGO COMPLETO DE YURIJ CASTELFRANCHI NA CIÊNCIA HOJE

LEIA ENTREVISTA COM O FILÓSOFO ERNESTO PERINI SOBRE FAKES E CIÊNCIA

LEIA O COMUNICADO DE TAWANA KUPE NA REVISTA GALILEU

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