Amaro Soares Quintas

(1911/1998)
Historiador
Homenageado em 2019

Amaro Soares Quintas, nasceu no Recife, no dia 22 de março de1911, filho do Juiz de Direito Gabriel Soares Quintas e de Laura Pacheco Quintas. Sob a influência paterna, desde de muito jovem revelou seu talento para as carreiras das letras. Tal talento foi de pronto identificado por um dos seus influentes mestres, o professor Ismael Lumach, que impressionado com a curiosidade de um aluno que tudo questionava, pedindo explicações, disse uma vez em público e em bom tom: “esse menino vai longe”. A profecia se cumpriu plenamente. O menino tornara-se um dos mais conceituados intelectuais de sua geração, motivo de grande orgulho para seus contemporâneos, notadamente pela sua singular e evidente pernambucanidade.

Amaro Quintas concluiu seus estudos básicos no lendário Ginásio Pernambucano, berço da formação acadêmica de muitos ‘jovens talentos’, tais como: o jurista Luiz Pinto Ferreira; os geógrafos Josué de Castro e Manoel Correia de Andrade; o economista Celso Furtado; o cientista social Ariano Suassuna; o matemático Leopoldo Nachbin; o químico industrial Paulo Duarte; o engenheiro Joaquim Cardoso; o botânico Dárdano de Andrade Lima e, os médicos Aluízio Bezerra Coutinho e Aggeu Magalhães, citando apenas aqueles que já foram homenageados neste Memorial. O que distingue do agora Notável Cientista, Amaro Quintas, dos demais, foi seu amor e dedicação por este
histórico educandário, tendo sido, primeiro, aluno, depois professor catedrático de História, e, por fim, seu diretor, fechando assim o ciclo de uma brilhante carreira acadêmica de contribuições à instituição, tendo influenciado de forma construtiva na formação de várias gerações, por ter sido, reconhecidamente – se não o melhor –, um notável professor de História dos colégios e universidades de Pernambuco.

Concluiu em meados da década de 1930 o curso de Bacharel em Direito pela tradicional Faculdade de Direito do Recife (FDR) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), passando a exercer advocacia no Recife, mas logo abraçou o magistério, sua real vocação, ensinando História em vários colégios e escolas recifenses de ensino médio, públicas e privadas. Consolidou uma notável carreira como professor universitário e pesquisador de diversas instituições de ensino, pesquisa e extensão, destacando-se a Faculdade de Filosofia do Recife (FAFIRE), a Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), a Faculdade de Filosofia de Campina Grande, e a UFPE – que lhe concedeu o título de Professor Emérito –, contribuindo, assim, de forma efetiva para a formação superior de várias gerações de pesquisadores, notadamente da região nordeste.

Como cronista, foi colaborador do Diário de Pernambuco e do Jornal do Commercio, nos quais publicou uma série de artigos sobre história e política, alcançando grande repercussão nos mais avançados centros intelectuais do país, sempre advogando a relevância e o supremo significado da liberdade. Neste particular, o trabalho de Amaro Quintas em grande parte dedicado à análise
dos movimentos libertários brasileiros, fizeram dele autêntico merecedor do reconhecimento de seus pares como: “O Historiador da Liberdade”.

Foi membro associado do Instituto de Coimbra, Portugal, do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Foi o primeiro Diretor do Departamento de História Social do Instituto Joaquim Nabuco (atual Fundaj), cargo que exerceu até 1964. Foi eleito membro da Academia Pernambucana de Letras (APL), tomando posse no dia 26 de janeiro de 1962, ocupando a cadeira de Nº 32. Seu primeiro centenário de nascimento, ocorrido em 22 de março de 2011, foi celebrado com todas as honras pela APL, com a promoção do “Seminário Amaro Quintas: O Historiador da Liberdade”, coordenado – sem deixar de lado as emoções familiares –, por sua filha, então presidente da APL, escritora e acadêmica, Fátima Quintas.
Evento que teve grande repercussão nos meios literários e intelectuais do Recife.

Como pesquisador, realizou diversas investigações históricas em Portugal e na França, trazendo à luz novos e originais achados históricos, que lhe permitiu fundamentar suas pesquisas, deixando uma extensa e valiosa obra, caracterizada por cerca de vinte e um livros. Proferiu inúmeras conferências em temas históricos portugueses e brasileiros, constituindo-se no mais respeitado historiador brasileiro especialista nos movimentos libertários pernambucanos, colaborando inclusive para a série “História Geral da Civilização Brasileira”, editada sob a supervisão de Sergio Buarque de Holanda. No conjunto de sua obra, destacam-se: “O Sentido Social da Revolução Praieira”; “A Gênese do Espírito Republicano em Pernambuco e a Revolução de 1817”; “Capitalismo e Cristianismo”; “Um Analista Político do Século Passado: O Padre Lopes Gama”; “Reflexões Sobre o Destino do Mundo”; “Um Pioneiro da Ordem dos Advogados”, e “Padre Lopes Gama Político”.

Em seu mais fecundo trabalho, “Gênese do Espirito Republicano em Pernambuco e a Revolução de 1817” – escrito como trabalho de Tese com o qual conquistou a Cátedra de História no Ginásio Pernambucano –, Amaro Quintas contextualiza os argumentos que justificam e consolidam a classificação do movimento emancipacionista de 6 de março de 1817 em Pernambuco, como Revolução, e não como uma possível Rebelião Coloquial ou mesmo uma mera Sedição, como alguns historiadores assim descreviam o movimento na literatura. Sua narrativa foi construída com base em elementos irrefutáveis, como as constantes aspirações libertárias do povo pernambucano, associada à falência do sistema colonial como parte, à época, da conjuntura mundial, ou sejam: o fato de ter sido um movimento separatista com adesão popular; que superou a fase conspiratória chegando a tomar o poder local; ter constituído um governo provisório por mais de dois meses; ter instituído símbolos e uma constituição provisória.

Episódio marcante na vida de Amaro Quintas – de expressivo significado que cabe aqui relatá-lo –, ocorreu logo no início da ditadura militar, advinda do Golpe de Estado de 1964, em pleno ano de 1964. O Prof. Amaro Quintas em exercício livre de suas atribuições intelectuais como historiador, fizera uma Conferência no Teatro Santa Isabel sobre o tema “A Livre Determinação dos Povos”, incluindo no texto o assunto referente a livre escolha do regime político, o que provocou o descontentamento dos militares. Não chegou a ser preso, graças a providencial proteção de guarda e ocultação, do seu grande amigo Gilberto Freyre – que por ser amigo pessoal do Gel. Humberto de Alencar Castelo Branco, que se tornara o primeiro Presidente da República da ditadura militar –, e ainda, por ter Gilberto Freyre apoiado publicamente o golpe militar, tinha “trânsito livre” junto ao alto Comando do 4º Exercito, sediado em Recife. Entretanto, o nosso homenageado, teve a pior das punições para um intelectual de sua estirpe poderia ter, ou seja: cassação de seus direitos políticos, impedindo-o de lecionar em instituições federais de ensino e pesquisa.

Amaro Quintas foi casado com Edith Quintas, mãe dos seus três filhos (Mardônio, Fátima e Elisa), formando um casal com forte tradição católica tendo sido Edith sua eterna companheira. O  Historiador da Liberdade, faleceu no Recife, no dia 20 de maio de 1998, de insuficiência respiratória.
Foram 87 anos de exemplo de vida, sempre irradiando ideias iluminadoras, deixando um legado inestimável de contribuições ao conhecimento, como historiador, pesquisador, professor, escritor, conferencista. Foi um homem plural, múltiplo, regional e ao mesmo tempo universal, deixando sua presença continuamente viva em nossa memória.

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