Fernando de Souza Barros

(1929/2017)
Físico Experimental
Homenageado em 2019

Fernando de Souza Barros, pernambucano nascido no Recife, em 8 de setembro de1929. Durante seu curso de Engenharia Civil na então Escola de Engenharia do Recife, por ter sido um excelente aluno nas disciplinas de Física, foi incentivado pelo professor Luiz de Barros Freire – também homenageado, em 2009, neste Memorial – a seguir carreira em Física, em vez de ser engenheiro civil. Neste particular, o professor Luiz Freire revelou-se ter sido um extraordinário “caçador de talentos”, motivando para as carreiras das ciências exatas um seleto grupo de alunos da velha escola de engenharia, grupo esse, hoje identificado, como a “geração de ouro”, que além de Fernando de Souza Barros, era composto por jovens talentos que se tornaram notáveis cientistas brasileiros, com grandes projeções nacionais e internacionais, dentre os quais destacaram-se: os físicos, Mário Schenberg, José Leite Lopes, Hervásio de Carvalho, Francisco de Assis Brandão e Samuel Macdowell; e, os matemáticos, Leopoldo Nachbin e Manfredo Perdigão do Carmo.

Logo ao concluir o curso em Engenharia Civil em 1952, tendo como incentivador o Prof. Luiz Freire, Souza Barros aceitou o convite feito pelos Profs. Cesar Lattes e Ugo Camerini, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), Rio de Janeiro, para estagiar, a partir de 1953, no programa de raios cósmicos, trabalhando em montagens experimentais no Laboratório de Radiação Cósmica de Chacaltaya, situado a 5.000 metros de altitude, nas proximidades da cidade de La Paz, na Bolívia, como bolsista do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), permanecendo no programa até 1955.

Foi nesse período que Sousa Barros conheceu sua esposa, Susana Lehrer de Souza Barros, nascida em 2 de fevereiro de 1929, na cidade de Santa Fé, na Argentina, também Física Experimental. Em 1956 o casal viaja para a Inglaterra onde Souza Barros foi aceito como aluno no curso de doutorado do Departamento de Física da Universidade de Manchester. Na Inglaterra nasceu o único filho do casal Nicolas de Souza Barros, violonista e professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).

Em Manchester, Souza Barros trabalhou sob as orientações dos Profs. Samuel Devons e Aubrey Jaffe, em um dos pioneiros estudos sistemáticos de reações nucleares do tipo stripping com feixes de hidrogênio-3 (trítio). Esses estudos constituíram a base para a sua tese de doutorado, defendida em 1960, concluindo, assim, seu PhD em Física Nuclear Experimental na Universidade de Manchester.

Em paralelo, Suzana Lehrer trabalhou no campo de partículas elementares em estudos sobre o decaimento radioativo do Meson Pi. É neste tema em que concluiu sua tese de doutorado defendida na Universidade de Manchester em 1960. Susana realizou uma brilhante carreira como professora e pesquisadora, tendo sido uma das pioneiras da pesquisa em Ensino da Física no Brasil, realizando inúmeros projetos voltados tanto para formação docente como para estratégias de ensino-aprendizagem. Susana e Fernando formaram um casal exemplar de cientistas, no entanto, o destino separa o casal em 24 de outubro de 2011, com o falecimento de Susana, aos 82 anos.

Em 1961, o casal retornou ao Brasil, com Fernando assumindo o cargo de professor assistente do CBPF e também responsável pro-tempore pela cadeira de Física Aplicada do Departamento de Física da Faculdade Nacional de Filosofia da antiga Universidade do Brasil. Em 1962, foi convidado pelo Prof. Sergio De Benedetti para trabalhar como físico pesquisador sênior no Carnegie Institute of Technology, em Pittsburgh, Estados Unidos. Dedicou-se neste período, ao estudo das propriedades das interações eletro-núcleo atômico, utilizando técnicas de física nuclear, tendo participado de estudos pioneiros do efeito Mössbauer em isótopos de iodo e em determinações de volumes nucleares pela interação hiperfina.

Retornou ao Brasil em 1963, por um período de um ano, durante o qual colaborou na  lanificação de laboratórios de pesquisas do Instituto de Ciências Exatas da Universidade de Brasília (UnB); no programa da Coordenação de Pós- Graduação em Engenharia (COPPE) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e, na implementação de técnicas de efeito Mössbauer no CBPF.

Com o golpe militar de 1964, transfere-se para os Estados Unidos, tendo sido contratado inicialmente como pesquisador, logo em seguida, como professor pela Universidade Carnegie-Mellon, em Pittsburgh. Neste período, participou de estudos de propriedades magnéticas e de fenômenos de relaxação em sólidos moleculares, utilizando principalmente a espectroscopia Mössbauer.

Voltou ao Brasil no início da década de 1970 para implantar o Curso de Pós-Graduação em Física da UFRJ, resultando na criação de um grupo de pesquisa experimental para estudos da estrutura da matéria condensada, com técnicas espectroscópicas (Mössbauer, óptica, raios-X, ressonância magnética) e técnicas de baixas temperaturas. Souza Barros participou ativamente de um grupo de pesquisa interinstitucional de projetos de física aplicada, utilizando técnicas nucleares, no estudo de minerais para fixação de fertilizantes e de materiais de interesse bioquímico e biológico, estudando, inclusive, o papel de minerais na evolução química da vida. Publicou um número superior a 50 artigos completos em periódicos, cinco capítulos de textos especializados e participou da orientação de dez dissertações de mestrado e oito teses de doutorado. Foi Professor Titular da UFRJ durante 26 anos, aposentando-se em 1999.

Em paralelo às suas atividades de pesquisas, Fernando de Souza Barros contribuiu vivamente para o avanço das ciências no Brasil, tendo apoiado em 1971 a implantação do grupo de Física do Recife, contribuindo, inclusive, com palestras, seminários, cursos, e ainda colaborando, eventualmente, em atividades de pesquisa do grupo. No âmbito internacional, desenvolveu estudos e atividades de divulgação na área de aplicações pacíficas da energia nuclear e eliminação de armas nucleares. Foi presidente da Sociedade Brasileira de Física (1983-1985).

No período 1998-2000, foi membro do Conselho Diretor de Pugwash (Prêmio Nobel da Paz em 1995). Foi membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e, em 1999, recebeu da UFRJ o título de Professor Emérito. Em 2008, foi agraciado com a comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico do Brasil.

Souza Barros foi um exemplo de dedicação à ciência, integridade e generosidade em sua vida pessoal e profissional, tendo contribuído para o crescimento da Física Experimenta no Brasil e, para o desenvolvimento intelectual dos seus inúmeros estudantes com quem manteve sempre uma relação de carinho e amizade.

Fernando de Souza Barros faleceu no Rio de Janeiro, no dia 8 de novembro de 2017, aos 88 anos.

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