Don Carlo Borghi

(1910 – 1984)
Físico
Homenageado em 2018

(Sinopse escrita por Hélio Teixeira Coelho, colaboração de Andrea Sorgenti)

Na viagem da vida, amigos são mais que estradas; são placas que indicam a direção, e por vezes, são o nosso próprio chão.”

Carlo Borghi nasceu em 3 de julho de 1910 em Barlassina, província de Monza, próximo a Milão, Itália. Em 1922 entra no Seminário de Monza, seguindo-se o Seminário de Milão e a Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Em 1933 é ordenado sacerdote em Milão e passa a se chamar Don Carlo Borghi. Desde cedo, seus superiores descobriram nele um grande talento para o magistério, principalmente no ensino da matemática. Assim em 1934 foi enviado para ensinar álgebra no Seminário de San Pietro em Seveso. Seu sucesso foi tal, que em 1934 o enviaram ao curso de Láurea em Ciência Física na Universidade Estatal de Milão. Lá colaborou com o professor Giovanni Gentile Junior, muito respeitado na comunidade científica e filho do filósofo do fascismo italiano Giovanni Gentile. Em 1939 recebe láurea em física teórica com a tese sobre a instabilidade dos nêutrons e a determinação de sua meia vida. Sua pós-graduação foi ainda feita nesta universidade.

Com a deflagração da segunda guerra mundial, em 1940 torna-se tenente capelão militar, e foi enviado aos Alpes, onde lutou até 1941. Na primavera de 1942, foi então enviado para o norte da África, em Tobruk, Líbia. Foi citado em boletim de guerra e condecorado por ações militares. Ferido volta à Itália. E por indicação do professor Gentile, na época gravemente doente, é escolhido no período de 1942- 1944 para ensinar física teórica na Universidade Estatal de Milão. Nesse período dedica-se também ao estudo da história da ciência e problemas filosóficos com a ciência, colaborando com a revista “Sintesis”, fundada em 1944. A guerra, o uso da energia nuclear em Hirochima e Nagasaki, no Japão, o afetaram psicologicamente. Em 1945 deixa a universidade e pede ao cardeal Schuster para retornar a servir à Igreja.

Mais tarde, entre 1945 e 1952, torna-se pároco de Calco (Lecco), vizinho ao lago di Como no norte da Itália.

Em 1952 é chamado à Roma e indicado como conselheiro científico do Papa Pio XII. Nesta fase retoma suas pesquisas em física teórica com estudos sobre a produção de nêutrons mediante fusão a frio. Costumava dizer “semel accademicus, semper accademicus”, isto é, “uma vez professor, professor sempre”.

Em 1960, foi enviado ao Brasil para criar na Universidade Católica de Pernambuco, em Recife, um centro de pesquisas em física nuclear. Não está claro se aí houve uma interferência do Vaticano nesse processo, pois suas convicções políticas mais à direita se contrapunham àquelas do então arcebispo, Dom Hélder Câmara, mais à esquerda. Naquela época, as condições de ensino e pesquisa em física naquela universidade eram bem incipientes. Assim em 01 de junho de 1962 ingressa na então Universidade do Recife (UR) ainda com aquela missão de fundar um centro nuclear. Uma trajetória sua de sucesso começa nessa época. Tal centro começa a tomar corpo no prédio do então Instituto de Física e Matemática (IFM) que funcionava numa antiga casa, situada na rua do Progresso, no bairro da Boa Vista. Esta casa tinha um belo quintal repleto de mangueiras centenárias. O IFM era dirigido pelo professor Luiz Freire, tendo o Pe. Borghi, como coordenador do setor de física. Em 1962 a primeira turma de bolsistas de iniciação científica do CNPq foi recrutada pelo Pe. Borghi na Escola de Engenharia de Pernambuco para gerar os primeiros profissionais a trabalharam na área nuclear em Pernambuco. Nesta turma e nas que se seguiram destacaram-se nomes como Hélio Teixeira Coelho, Clemente Carneiro, Sueldo Vita, Fernando Ribeiro, Francisco Bezerra Coutinho, que continuaram ligados à pesquisa nuclear, e de outros nomes, como Clementino Amazonas Pontual, Altino Ventura Filho, Cláudio Luis Dubeux Neves que posteriormente seguiram outros caminhos. No IFM eram dados cursos avançados em Mecânica Analítica, Relatividade, Eletrodinâmica Clássica, entre outros. O Pe. Borghi, Luiz Freire e o Pe. José de Nogueira Machado eram seus professores de física principais, tendo o Ruy Luiz Gomes como professor de física matemática. Após a graduação em Engenharia, estes bolsistas eram enviados ao então Instituto de Energia Atômica (IEA)/ Universidade de São Paulo para um curso intensivo de um ano na área nuclear, com ênfase na parte experimental.

Em 03 de Dezembro de 1963 a pedra fundamental do centro nuclear é lançada e sua conclusão ocorre em 01 de abril de 1968, tendo à frente a firme determinação do Pe. Borghi. Já em 1965 o Pe. Borghi é nomeado seu coordenador. É sob sua influência que neste centro instala-se o reator nuclear subcrítico, conhecido como RESUCO, projetado no IEA, tendo inclusive alguns de ex-alunos acima mencionados, como auxiliares do projeto. Recentemente, para nosso espanto, este reator foi levado de volta pela CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear), sem que houvesse qualquer reação das devidas autoridades da UFPE.

Pe. Borghi era um homem alto e esguio, bem claro, como os italianos do norte da Itália. Era autoritário naquilo que defendia e um bom diplomata quando se fazia necessário. Com um cachimbo, fumava enquanto arduamente trabalhava, lembrando um pouco a figura de um lorde inglês.

Com a reforma   universitária, o hoje Departamento de Física foi criado em 11 de agosto de 1967, continuando o centro nuclear como uma entidade à parte.

O Pe. Borghi trouxe também da Itália, outro colaborador, o físico Attilio Dall’olio, que aqui deu várias contribuições importantes.

Pe. Borghi deixou uma vasta obra cientifica, com seis textos de física, publicada pelo IFM, sob a direção de Luiz Freire. Começou em 1961 com o “Formalismo Lagrangeano- Hamiltoneano”, até o sexto livro, em 1967, “Introdução à Física Atômica e Nuclear”. Estes livros juntamente com o livro “Bases para uma Axiomática da Termodinâmica” de Luiz Freire, são possivelmente, os livros de física avançada mais antigos publicados em Pernambuco. Publicou também artigos científicos em revistas especializadas, como o Physical Review, e colaborou com outros cientistas da UFPE, como A. Bezerra Coutinho, da Faculdade de Medicina.

Com todo este trabalho profícuo, seu coração não aguentou. Em 1973 sofreu um enfarte do miocárdio e em 1975 abandona definitivamente seu trabalho no centro que passou a se dominar Departamento de Energia Nuclear. Ainda em 1975 volta à Itália. Lá é condecorado pelo presidente Saragat com “la Nomina di Cavaliere della Republica” por seu importante trabalho na Itália e no Brasil.

Morreu em 30 de Março 1984 em Parma, junto ao seu amigo Don Camillo Gioria, professor de física na universidade local. Foi enterrado em Calco (Lecco). Como todo italiano culto, era amante das artes, em particular da música erudita e da poesia. Don Borghi foi um homem muito honesto e fiel à Igreja.

Tra poco ci dovranno pur chiamare,
vecchi strumenti della mia vita,
per lunghi tempi e per molte cose
miei complici compagni d’esistenza,
tra poco ci diranno: vieni, è l’ora. 
Diremo addio a cose sagge e stolte, 
ci pentiremo delle cose folli,
temendo, eppur cercando la verità. 
Ma non varrà rimpianto, non pietà, 
non incompiuta trama, non tormento,
non dubbi, non certezze, non tesori,
non carezza varrà né tenerezza,
a trasmutare il corso e il compimento
dello schiudersi nero e inaspettato
dell’uovo che crediamo un universo,
in un grembo infinito ove t’aspetta
lo svelare di quello che tu sei.
É a hora

Daqui a pouco nos deverão chamar mesmo,
Velhos instrumentos da minha vida,
Por longos tempos e para muitas coisas
Meus cúmplices amigos de existência,
Daqui a pouco nos dirão: vem é a hora.
Diremos adeus para coisas sábias e idiotas,
Arrependermo-nos das coisas insensatas,
Temendo, mas mesmo assim procurando a verdade.
Mas não valerá pesar, não piedade,
Não inacabado enredo, não tormento,
Não dúvidas, não certezas, não tesouros,
Não caricia valerá, nem ternura,
Para transmudar o curso e o cumprimento
Do abrir-se negro e inesperado
Do ovo que acreditamos um universo,
Em um ventre infinito onde te espera
O revelar-se daquilo que tu és.

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