Amaury Domingues Coutinho

(1918 – 1995)
Médico e Pesquisador
Homenageado em 2018 

Infância

AMAURY DOMINGUES COUTINHO, médico, professor e pesquisador, nasceu no Recife, juntamente com seu irmão Maurício, em 16 de abril de 1918. Teve mais três irmãos, Murilo, Lourdes e Symphronio. Os gêmeos, Amaury e Maurício, não conheceram o pai, Symphronio César Coutinho, falecido precocemente, vítima da gripe espanhola, quatro meses antes do nascimento. A mãe, Esther Domingues Coutinho, criou os cinco filhos e na viúvez foi amparada pelos irmãos Ageleu e José Domingues que, em grande parte, lhe compensaram a falta da figura paterna. De consistência física franzina, Amaury era considerado, de fato, o caçula. Quando menino, teve um episódio agudo de crupe, precisando desobstruir a glote de forma emergencial, sendo submetido a uma traqueostomia na mesa da cozinha de casa pelo médico da família, conforme narrava.

Juventude

Estudou no Ginásio Pernambucano do Recife, sempre excelente aluno, recebeu prêmios anuais e aprovação por média. Nessa época, segundo contava, despertou sua vocação para a Medicina pelo exemplo e convívio com os parentes médicos, o tio Oscar Coutinho, irmão do pai, o primo Artur Coutinho e o tio Ageleu Domingues.

Formação Superior

Concluiu o curso médico da Faculdade de Medicina do Recife aos 21 anos de idade, recebendo o “Prêmio Raul Leite” por ter sido o melhor aluno da turma de 1939 e ainda o “Prêmio do Diário de Pernambuco” como o melhor aluno nas Cadeiras de Laboratório. Nos últimos anos do Curso de Medicina foi interno da Cadeira de Clínica de Doenças Tropicais e Infecciosas e estagiário da Primeira Cadeira de Clínica Médica da Faculdade de Medicina do Recife, dirigida pelo Prof. Fernando Simões Barbosa, Cadeira na qual depois exerceu uma longa carreira no magistério superior. Realizou diversos cursos e estágios de aperfeiçoamento, destacando-se o de Bioquímica e o de Farmacologia (Alergia e Imunologia), no Instituto Biológico de São Paulo, em 1944, e o estágio no Instituto de Investigaciones Físicas aplicadas à Patologia Humana (Seccion de Alergia), em Buenos Aires, 1947.  De setembro de 1954 a junho de 1955 realizou importantes estágios em Clínica Médica, propiciados por uma Bolsa de Estudos da W. K. Kellogg Foundation, nas áreas de Gastroenterologia, no Bellevue Hospital of Cornell University Medical College, em New York; de Alergia, no University Hospital of Michigan, em Ann Arbor; e de Hematologia, no New England Center Hospital, em Boston. Tais estágios foram reconhecidos pelo American College of Physicians com diploma de Pós-doutoramento. 

Atividades Profissionais

Exerceu as seguintes atividades e empregos públicos como médico: Oficial Médico (1º tenente) do Exército Brasileiro, de 1942 a 1944; Médico Clínico da Caixa de Aposentadoria e Pensões dos Serviços Públicos dos Estados de Pernambuco e Alagoas, de outubro de 1940 a março de 1947; Médico, por concurso, do Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Comerciários – IAPC, de fevereiro de 1948 até 1967; Médico do Instituto Nacional da Previdência Social – INSS, desde a fundação do mesmo até a sua aposentadoria em 1988.  

Atuou em diversas sociedades e associações profissionais, nacionais e internacionais. Em destaque, foi sócio-fundador da Academia Pernambucana de Medicina, da Sociedade Brasileira de Alergia e da Sociedade Brasileira de Hepatologia. Foi membro das seguintes instituições: The American College of Allergists; The International Society of Hematology; The American College of Physicians; The American Society of Tropical Medicine&Hygiene; Societé Internacionale de Medicine Interne; International Association for the Study of the Liver; Sociedade Latino Americana de Hepatologia; Sociedade de Medicina de Pernambuco; Associação Médica Brasileira; Sociedade Brasileira de Imunologia; Federação Brasileira de Gastroenterologia; Colégio Brasileiro de Hematologia; Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia; Sociedade Brasileira de Medicina Tropical; Sociedade Brasileira de Parasitologia.

Docente

Em 1940, no ano seguinte após sua graduação, iniciou a carreira docente na Faculdade de Medicina do Recife, como Assistente das Cadeiras de Farmacologia até 1943, de Fisiologia, na qual permaneceu até 1947, e na 1ª Cadeira de Clínica Médica, tendo-a iniciado em 1946, sucessivamente, na função de Assistente Voluntário, Auxiliar Técnico, Professor Assistente Contratado e Professor Interino em alguns períodos até 1950, quando então obteve o título de Livre Docência.

Em 1960, logrou o primeiro lugar no concurso público para a Cátedra de Clínica Médica (1ª Cadeira), na qual ensinou até a sua aposentadoria, em 1988, perfazendo um total de 42 anos de magistério superior na Universidade Federal de Pernambuco, sendo 28 anos como catedrático e professor titular. Nesse período, além do cargo de Professor Titular de Clínica Médica, teve forte atuação na gestão acadêmica e administrativa da UFPE. Foi Chefe do Departamento de Medicina Clínica da Faculdade de Medicina da UFPE, de 1969 a 1970, Diretor do Centro de Ciências da Saúde, no período de 1980 a 1984, Membro do Conselho Departamental do Centro de Ciências da Saúde da UFPE, de 1971 até a sua aposentadoria, Pesquisador A-1 do Conselho de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq, além de ter participado de inúmeras comissões acadêmicas e de ter sido membro dos conselhos superiores da UFPE, em várias ocasiões. Após sua aposentadoria, recebeu, em 1990, o título de Professor Emérito da UFPE.

Pioneirismo e empreendimentos

Dentre os seus empreendimentos destacam-se: a reorganização da primeira Clínica Médica, iniciada logo após assumir a Cátedra, tanto das suas instalações físicas como do programa, conteúdo e ensino integrado da disciplina. Obteve recursos da reitoria para reforma das precárias enfermarias Santa Anna e Santo Anselmo, do Hospital Pedro II (Hospital das Clínicas da época), criando espaços para biblioteca, seções especiais para diagnóstico e para laboratórios de pesquisa clínica, que dispunham dos mais modernos equipamentos da época, fornecidos pela Kellogg Foundation. As instalações desses vários serviços médicos permitiram a convivência e integração com diferentes profissionais, habilitando-os em várias especialidades, a saber, Endocrinologia, Gastro-Hepatologia, Cardiologia, Hepatologia e Reumatologia, dando ênfase ao ensino global da disciplina de Clínica Médica, tanto para o quarto ano do Curso Médico como para os doutorandos estagiários; liderou a implantação da Residência Médica no Hospital Pedro II, sendo Pernambuco o terceiro estado do país a obtê-la, tendo-a coordenado durante um longo período. Criou o “Serviço de Estagiários”, juntamente com o Prof. Jarbas Pernambucano, que englobava a Residência e o Internato, regido por um regulamento especial de Estágio Hospitalar aprovado pelos Conselhos da Faculdade de Medicina e pelo Conselho Administrativo do Hospital Pedro II.

O Professor Amaury Coutinho foi também pioneiro e incentivador de avanços tecnológicos, tanto no âmbito clínico como laboratorial, sendo responsável pela montagem de várias técnicas em laboratório de bioquímica e de radioisótopos. Sob sua liderança, após vários meses de estudos e entendimentos, foi criado na UFPE, em 1975, um “Programa de Saúde Comunitária” que passou a funcionar nos municípios de Vitória de Santo Antão, Pombos e Chã Grande, e que ficou conhecido como “Projeto Vitória”, cujos principais objetivos eram: 1) Melhoria das condições de saúde das populações na área programática; 2) Regionalização e hierarquização dos serviços de saúde; 3) Integração docente-assistencial; 4) Formação de recursos humanos para a saúde em todos os níveis e, em especial, de profissionais generalistas; 5) Participação da comunidade nas ações de saúde. O “Projeto Vitória” foi certamente um dos mais empolgantes empreendimentos de sua vida acadêmica. Inovador, ele perseguiu com determinação a ideia-força da integração docente-assistencial como motor da formação de uma consciência crítica na área de saúde. Essa rica experiência, com o apoio da Secretaria Estadual de Saúde, durou nove anos e integrou a UFPE com a Zona da Mata de Pernambuco, propiciando uma marca social relevante na formação de médicos, odontólogos, nutricionistas e assistentes sociais.

Família

Casou-se com Anna da Silva Galvão, estudante da Escola de Belas Artes do Recife, em julho de 1945, com quem teve seis filhos. Como pai, Amaury não interferiu diretamente na escolha profissional dos filhos, mas incentivou-os a obter formação universitária pós-graduada. Os filhos deram-lhe 18 netos, que, por sua vez, geraram 26 bisnetos.

Produção Intelectual

Ao longo da sua carreira acadêmica, Amaury realizou intensa atividade científica que resultou numa vasta produção intelectual, baseada principalmente nas duas linhas de pesquisa que desenvolveu sobre doenças tropicais: Filariose e Esquistossomose. Além dos aspectos técnicos e científicos tinha grande interesse pelos aspectos epidemio-lógicos, ecológicos e principalmente sociais dessas doenças. Em decorrência de sua atuação, estudos foram dirigidos para a Pesquisa Médica Aplicada, contribuindo para alguns avanços do diagnóstico e do tratamento dessas duas importantes doenças tropicais. Em relação à Filariose, ele abordou a Eosinofilia Tropical, a Epidemiologia e o Tratamento, e, quanto à Esquistossomose, preocupou-se com a Epidemiologia, com os Aspectos Patogênicos, Clínicos, com a Hipertensão Portal e o Tratamento.

No início de sua carreira, escreveu trabalhos sobre Semiologia Hepática e outras doenças do fígado, além de Alergia e Hematologia. Produziu também vários trabalhos, conferências e artigos sobre Educação Médica e Integração Docente-Assistencial, Hospital de Ensino e Medicina Comunitária.

Suas duas Teses foram inéditas e ainda hoje são citadas como referência. A primeira, de Livre Docência, defendida em 1950, versou sobre “Eosinofilia Tropical: estudo etiopatogênico, clínico e terapêutico”. A segunda tese, defendida para obtenção da Cátedra em 1960, versou sobre Hipertensão Portal na Esquistossomose Hepatoesplênica. Em 1981, devido à sua grande produção científica, recebeu a “Medalha CNPq” pela sua contribuição à pesquisa e a Academia Nacional de Medicina outorgou-lhe o “Prêmio Alfred Juryyhowski” como reconhecimento pela sua contribuição à Gastroenterologia e à Medicina Tropical e, ainda, por sua dedicação ao ensino de Clínica Médica. 

Legado Científico

Foram mais de 100 trabalhos publicados em revistas nacionais e internacionais, e diversos capítulos de livros. Pela sua relevância, mesmo após 23 anos de seu falecimento, eles continuam sendo citados em publicações científicas nacionais e internacionais.

Seus estudos contribuíram para confirmar a importância do tratamento da esquistossomose, pois na época de suas pesquisas havia intensa discussão sobre a segurança e os benefícios do tratamento. Testou as principais drogas para o tratamento dessas duas doenças parasitárias, que são utilizadas até hoje. Contribuiu para elucidar a patogenia da esquistossomose e a hemodinâmica da hipertensão portal. Contribuiu para a formação de grandes clínicos que ainda hoje atuam na sociedade e na Universidade, deixando um importante legado para os estudos científicos e para a ética médica.

Em 30 de agosto de 1996, após seu falecimento, a Prefeitura da Cidade do Recife inaugurou a “Policlínica Professor Amaury Coutinho”, situada na Campina do Barreto, em Recife, destinada a dar assistência médica aos moradores dos bairros de Arruda, Água Fria, Dois Unidos e periferia.

Após sua aposentadoria compulsória da UFPE, ele continuou a trabalhar como pesquisador convidado do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, da FIOCRUZ, em Recife. Nos últimos sete anos de vida publicou cerca de 14 trabalhos científicos. Sua morte foi prematura. Horas antes de internar-se com angina estava finalizando um dos seus últimos trabalhos científicos, publicado post-mortem, em coautoria: “História da Filariose linfática em Pernambuco: aspectos epidemiológicos e de controle.” (Rev. Soc. Bras. Med. Trop., 1996), revelando, mais uma vez, sua preocupação pela questão social.

Faleceu em 26 de abril de 1995, dez dias após ter completado 77 anos.

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