MULHERES CIENTISTAS DE PE

Para a Física Sandra Vianna, as mulheres estão fazendo um bom trabalho e é preciso continuá-lo   

Sandra Vianna sempre gostou de Física, “desde que se entende como gente”. Contou para isso com o trabalho fundamental de seus professores, que conseguiram fazê-la perceber o quanto essa área pode ser interessante. Também contou com o apoio da família, que sempre valorizou a importância de cada um se dedicar àquilo que gosta. Sandra, que pesquisa a interação entre átomos e a interação de átomos com a luz, sempre gostou do que faz. Mas sempre conviveu com um preconceito velado, sutil: “As pessoas reproduzem preconceitos sem nem perceber. E o pior é que a gente acaba se acostumando com isso”, diz. Para ela, é preciso repensar a criação das novas gerações e desconstruir todos os preconceitos: não apenas de gênero, como também de raça e classe social por exemplo. Com a entrevista com Sandra Vianna, o Espaço Ciência fecha a série “Mulheres Cientistas de Pernambuco”. Mas é bom que se diga: há muitas outras por aí, driblando as dificuldades e mostrando seu valor em qualquer área do conhecimento. 

 

ESPAÇO CIÊNCIA – Primeiro eu queria que você se apresentasse e falasse rapidamente de teu currículo e da pesquisa que você vem desenvolvendo atualmente…

SANDRA VIANA – Sou professora do Departamento de Física da Universidade Federal de Pernambuco. Fui formada pelo Instituto de Física, na USP; fiz Mestrado também em São Paulo, numa área de Física ligada à matéria condensada; e depois vim fazer o doutorado aqui em Recife. No pós-doutorado, nos Estados Unidos,  encaminhei minha linha de pesquisa para a área de Física Atômica Ótica.  E venho trabalhando nesta área até hoje. Faço pesquisa em sistemas atômicos, procurando entender a estrutura, a interação entre átomos, a interação de átomos com a luz. Uso lasers, energia de ondas eletromagnéticas, interagindo com os átomos para daí tirar informações. Além do interesse em entender o mundo atômico, há também o de desenvolver novas tecnologias.

ESPAÇO CIÊNCIA – Você sempre se interessou pela Física? Como foi que despertou para esta área? 

SANDRA – É um pouco difícil dizer quando eu comecei a me interessar pela Física. Em minha recordação, isso aconteceu quando eu estava terminando o Ginásio. Na época, todo mundo achava que eu iria fazer Medicina. Mas eu queria fazer Física e já fiz o Científico decidida a fazer vestibular para isso. Acredito que foram os professores que me fizeram despertar para a área: a maneira como eles apresentaram para mim a área de Ciências, no Ginásio, e o entusiasmo que depois foi transmitido pelo meu professor de Física.

ESPAÇO CIÊNCIA – Que semelhança existe entre a criança Sandra e a profissional Sandra?

SANDRA – Eu sempre gostei de ler e sempre gostei da Medicina. Minha mãe era médica e eu levava muito jeito em casa, cuidando de alguém que estivesse doente ou se machucasse. Por isso, as pessoas acreditaram que eu faria Medicina. Mas Física é minha matéria favorita desde que me entendo como gente.

ESPAÇO CIÊNCIA – Tua família e amigos te estimularam para investir nessa área?

SANDRA – Mais a família que os amigos. Minha mãe sempre estudou, meu tio era um cientista na área de Biologia… eles sempre valorizavam o fato de você se dedicar àquilo que gosta. Dos amigos, a gente sempre escuta alguns comentários como se a gente fosse meio louca por cursar a área de Física. Mas acredito que isso vem mudando com o tempo. 

ESPAÇO CIÊNCIA – Você já viveu alguma situação de preconceito por ser mulher, na tua área? Já se sentiu subestimada ou desvalorizada por conta do gênero?

SANDRA – Claro que senti… O problema é que o preconceito está enraizado. Então as pessoas reproduzem estes preconceitos sem nem perceberem. O mesmo vale para a pergunta sobre eu me sentir subestimada ou desvalorizada: tudo isso acontece de forma muito sutil, mas acontece. E o maior problema é que a gente acaba se acostumando. O mesmo vale para outras formas de preconceito: de raça, de classe social. A gente precisa tratar de todas as formas de preconceito, não focar em apenas um deles. Para isso, é importante repensar a criação destas novas gerações que vêm pela frente. 

ESPAÇO CIÊNCIA – Como você vê, atualmente, a presença das mulheres na Física? Tem aumentado?

SANDRA – Acho que sim. E elas tem se mostrado mais ativas, lutando por aquilo que querem. O problema de nossa Educação é que nós, mulheres, nos sentimos no lugar errado fazendo Física. E isso nós precisamos mudar. Mas acho que tem melhorado: o Brasil tem uma grande quantidade de mulheres Físicas comparado a outros países. Temos feito um bom trabalho e precisamos continuá-lo.

ESPAÇO CIÊNCIA –  Você tem filhos? Tem ou já teve dificuldades para conciliar as atribuições domésticas e profissionais?

SANDRA – Não tenho filhos. Mas sei o quanto é difícil conciliar as atribuições. E isso vale para qualquer emprego levado a sério: é sempre muito complicado conciliar o trabalho e as funções domésticas. 

ESPAÇO CIÊNCIA – O que falta para que as mulheres se interessem pela Física? O que as afasta da área de Exatas?

SANDRA – Eu acho que o motivo principal que afasta as mulheres da Física é por que elas não conhecem. Não se discute esse assunto com elas. Na escola e em lugar nenhum. Quando eu conheci a Física, fiquei maravilhada. Falta também o estímulo para que elas façam o que gostam. Nossa sociedade poda as crianças por conta de preconceitos: não pode fazer Física, não pode fazer Música… essas coisas têm que ser evitadas. A criança precisa conhecer tudo e escolher livremente o que quer. Se isso acontecesse, haveria uma distribuição melhor dos gêneros nas diversas áreas. Mas a gente vê, por exemplo, menos homens nas áreas de Educação Básica. E isso é ruim. Em todas as áreas, é importante haver uma diversificação e que cada um possa contribuir com seu pensamento e sua individualidade.

 

MULHERES CIENTISTAS DE PERNAMBUCO

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