MULHERES CIENTISTAS DE PE

A Química Giovannia Pereira decidiu mostrar às crianças que Ciências Exatas são legais e são para todos

Na quarta edição da série “Mulheres Cientistas de Pernambuco”, o Espaço Ciência conversou com Giovannia Araujo de Lima Pereira. Giovannia é química e, entre outras coisas, estuda propriedades magnéticas e ópticas de algumas espécies de moléculas e nano partículas com potencial para serem aplicadas como sondas de imagem para  exames clínicos. Embora ela perceba que, no Departamento de Química, as mulheres já marquem presença, reconhece que a presença feminina nas Ciências Exatas é muito pequena. Tanto que decidiu desenvolver um projeto nas escolas de nível Fundamental, que fomenta o interesse por estas áreas e dá visibilidade ao potencial de mulheres cientistas. Seu grupo parte de temas de pesquisas lideradas por mulheres para desenvolver, junto com as crianças, aulas dinâmicas, lúdicas e interativas. “O trabalho está lindo!”, diz Giovannia, cheia de orgulho.

CONFIRA O VÍDEO DA PRIMEIRA EDIÇÃO DO PROJETO.

 

ESPAÇO CIÊNCIA – Primeiro eu queria que você se apresentasse e falasse rapidamente de teu currículo e da pesquisa que você vem desenvolvendo atualmente…

GIOVANNIA PEREIRA – sou docente do Departamento de Química Fundamental da UFPE desde 2011. Tenho formação na área de Química Inorgânica e minha tese de doutorado, na Universidade de Coimbra, foi voltada para o estudo físico-químico de sistemas paramagnéticos moleculares e nano particulados, com potencialidades para serem aplicados como agentes de contraste para imagem por ressonância magnética. Quando voltei ao Brasil, comecei a combinar tais sistemas paramagnéticos a outras nanopartículas com propriedades óticas bastante interessantes, conseguindo assim o desenvolvimento de sondas de imagens bi e multimodais biocompatíveis para aplicações biológicas. 

ESPAÇO CIÊNCIA – Você sempre se interessou pela Química? Como foi que despertou para esta área? 

GIOVANNIA – No Ensino Fundamental, adorava ler os livros de Ciências. Sempre foi a minha disciplina favorita e, no Ensino Médio, sempre fui boa aluna em Química. Bacharelado em Química não foi minha primeira escolha. Pensei em fazer vestibular para Farmácia, mas acabei optando por Engenharia Química (gosto também de matemática). Porém, já na Universidade, fiz transferência interna para o curso de Bacharelado em Química, depois de conhecer melhor o curso e de ter conseguido uma bolsa de Iniciação Científica. Foi quando eu me apaixonei de verdade pelo curso de Química. 

ESPAÇO CIÊNCIA – Que semelhança existe entre a criança Giovannia e a profissional Giovannia?

GIOVANNIA – A semelhança principal é que desde pequena sempre quis ser professora. Brincava de ser professora com minha irmã e coleguinhas. Hoje sou realizada porque sou professora e pesquisadora na área de Química. 

ESPAÇO CIÊNCIA – Tua família e amigos te estimularam para investir nessa área?

GIOVANNIA – Meus pais me apoiariam em quaisquer áreas, desde que fossem minhas escolhas. Mudar de Engenharia Química para Bacharelado em Química não foi problema algum para eles. E meus amigos da escola sempre me chamavam de “nerd” por gostar de química. 

ESPAÇO CIÊNCIA – Você já viveu alguma situação de preconceito por ser mulher, na tua área? Já se sentiu subestimada ou desvalorizada por conta do gênero?

GIOVANNIA – Com relação aos pares, nunca sofri preconceito por ser mulher, pelo menos explicitamente. Como docente senti, em alguns momentos, que era desafiada por alguns alunos das turmas do ciclo básico das Engenharias, que são majoritariamente formadas por meninos. A impressão que dava era que era preciso provar ainda mais que tinha competência para estar ali ensinando, como se precisassem ter a certeza da nossa capacidade. 

ESPAÇO CIÊNCIA – Como você vê, atualmente, a presença das mulheres na Química? Tem aumentado?

GIOVANNIA – Sabemos que há um problema de representatividade de mulheres nas Ciências ditas como duras. Há muitos estudos que comprovam a sub-representação feminina nessas áreas. Mas, falando de um universo menor, nos nossos cursos de Química aproximadamente metade dos estudantes matriculados são mulheres. Faço parte de um grupo de pesquisa constituído de cinco mulheres e um único homem e a maioria dos estudantes do nosso grupo de pesquisa são mulheres. Ponto positivo. 

ESPAÇO CIÊNCIA – E, como líderes de pesquisa, como é a presença das mulheres?

GIOVANNIA – Digo sempre que a mulher é um ser multifacetado, pois consegue dar conta das atribuições profissionais, pessoais e maternas com maestria. Não conseguimos (nem podemos) separar essas realidades tão distintas e igualmente importantes. Porém há, por vezes, priorizações que devem ser feitas em determinados momentos da vida, pois não é preciso saber fazer tudo ou ser bem-sucedida em tudo para ser feliz. Maravilha que é assim. Mas, é fato que as mulheres que chegam em cargos de liderança precisam gastar muito mais energia, e precisam ser mais impositivas e fazer escolhas que lhes façam bem, acima de tudo. Dados continuam mostrando a sub-representação feminina em cargos de liderança científica. 

ESPAÇO CIÊNCIA –  Você tem filhos? Tem ou já teve dificuldades para conciliar as atribuições domésticas e profissionais?

GIOVANNIA – Tenho uma filha que nasceu quando eu estava exatamente na metade do meu doutorado, morando fora e sem o precioso apoio familiar (apenas do meu ex-marido, que também trabalhava). É evidente que tive de me adaptar à nova realidade, aprendendo a dividir o meu tempo entre estudar, trabalhar e cuidar de um recém-nascido. Logo de início parecia que não ia dar certo, pois são funções bem distintas e difíceis. Mas incrivelmente temos uma capacidade adaptativa bem acentuada. Não vou dizer que foi simples, mas foi possível. Muitas mulheres passam pela mesma situação. Tive muita sorte de ter um orientador compreensivo e um grupo de trabalho muito amigo. No dia da minha defesa de tese estava lá a minha pequena com dois anos e foi um dos momentos mais especiais da minha vida. 

ESPAÇO CIÊNCIA – O que falta para que as mulheres se interessem pela Química? O que as afasta da área de Exatas?

GIOVANNIA – Penso que uma abordagem certa na hora certa poderia fazer a diferença. É importante plantar a sementinha da curiosidade de forma adequada, pensando também na desmistificação de que quem faz Química, Física e Matemática precisa ser muito inteligente. Tal abordagem pode auxiliar nessa tarefa. Pensando nisso, grupo de pesquisa vem atuando em turmas do primeiro ano do Ensino Fundamental 1, preparando aulas baseadas em temas de pesquisa que são lideradas por mulheres e apresentando-lhes numa linguagem simples, lúdica, porém com um rigor científico adequado para a faixa etária. O trabalho está lindo!

 

MULHERES CIENTISTAS DE PERNAMBUCO

LEIA TAMBÉM:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *