MULHERES CIENTISTAS DE PERNAMBUCO

Na segunda entrevista da série, Flávia Barros conversa sobre a exclusão das mulheres na Computação

Se na primeira entrevista da série, as estatísticas de inclusão de mulheres eram animadoras (CONFIRA), desta vez acontece o contrário. Na Computação, houve uma mudança de cenário a partir dos anos 90 e, se antes havia equilíbrio, hoje esta é uma área dominada pelos homens. “Há turmas com uma única mulher”, diz a pesquisadora Flávia Barros, que encontrou na Computação uma oportunidade de unir duas áreas bem diversas que ela sempre gostou: a Linguística e a Matemática. Flávia pesquisa o processamento de linguagem natural e recuperação de informações. Segundo ela, hoje a Computação é uma área muito aberta, com um espectro amplo de possibilidades de atuação. Mas por que as mulheres estão excluídas?  

ESPAÇO CIÊNCIA – Primeiro eu queria que você se apresentasse: fale um pouco de teu currículo e da pesquisa que você vem desenvolvendo atualmente…

FLÁVIA BARROS – O meu primeiro vestibular foi, na verdade, para Engenharia Elétrica. Cheguei a fazer o curso durante dois anos. Mas eu não estava satisfeita até que, ao cursar uma disciplina de programação, consegui descobrir aquilo de realmente eu gostava. Algo que juntava a matemática e a linguagem. A luta, então, foi para convencer meu pai, que não queria que eu mudasse de curso. Naquela época, a computação em Recife era muito recente; o curso era novo; as oportunidades não eram tantas. Mesmo assim eu fiz um novo vestibular, entrei e concluí meu curso de Ciência da Computação. Depois fui trabalhar em uma empresa de computação, mas sentia falta de espaço para estudar. Larguei o emprego, fiz meu mestrado aqui na UFPE em uma área de pesquisa chamada Processamento de Linguagem Natural ou Linguística Computacional, em que estou até hoje. O que a gente tenta fazer são sistemas que automaticamente conseguem tratar textos em uma língua natural, ou seja, extrair dados, analisar… é uma área que cresceu muito. Hoje em dia, tudo o que você imaginar nas aplicações Web tem algum algoritmo de processamento de linguagem natural por trás. Fiz o doutorado na Inglaterra, aprofundando esta mesma área de pesquisa, e hoje eu também trabalho com recuperação de informação, que constrói sistemas semelhantes ao Google. 

ESPAÇO CIÊNCIA – E quando você era criança, quais eram suas matérias favoritas? Qual a relação entre a menina Flávia e a profissional Flávia?

FLÁVIA BARROS – Eu gostava muito de Português: gramática, mais do que Literatura. Porque minha cabeça é muito das Ciências Exatas: gosto de colocar tudo dentro de formas, de regras… e a literatura não é assim.  E também gostava muito de Matemática.

“Na sociedade em que vivemos, as pessoas acham que a mulher não tem capacidade de lidar com chip, placa de circuito integrado…”

ESPAÇO CIÊNCIA – A área de Informática é uma área muito dominada pelos homens. Você já se sentiu subestimada ou desvalorizada por conta do gênero?

FLÁVIA BARROS – Isso é uma coisa recente. Quando eu fiz graduação, minha turma era meio a meio. E durante muito tempo foi assim… No meu emprego, a analista chefe era uma mulher. A partir do final da década de 80, isso começou a mudar e a computação virou uma coisa de homens. Nas turmas de graduação em que ensino, às vezes, tem só uma menina.

 

ESPAÇO CIÊNCIA – O que você acha que aconteceu que justifique essa mudança?

FLÁVIA BARROS – Não dá pra dizer com precisão o que aconteceu. Eu li um artigo que ressalta que essa mudança coincidiu com a chegada do computador pessoal. Quando os PCs passaram a se tornar acessíveis, passou a haver uma evasão das mulheres dos cursos de Computação: quem comprava o computador era o pai e o filho homem era quem usava para jogar. Outra leitura que fiz analisa que esse trabalho da computação, em suas origens, era muito associado ao trabalho da secretária: tarefas repetitivas, cálculos, folha de pagamento. Ou seja, um universo tido como “feminino”, segundo os estereótipos de gênero. Então vieram os jogos digitais com alta tecnologia e imprimiram o padrão tido como “masculino” no mundo da computação. Porque, na sociedade em que vivemos, as pessoas  acham que a mulher não tem capacidade de lidar com chip, placa de circuito integrado…

ESPAÇO CIÊNCIA – E você é uma mulher que trata com algoritmos, tratamento de informações… todas essas “coisas masculinas”…

FLÁVIA BARROS – Sim. Mas veja: a área de Computação é uma área muito aberta. Hoje em dia, além do trabalho na construção de novos algoritmos, também é possível reusar o que já está desenvolvido. Na programação, você pode pegar muita coisa pronta na Internet: existem sites repositórios de códigos. Você pode montar um sistema com pedaços de código que já estão feitos. É o que se chama reuso de software.  E boa parte dos aplicativos não são muito difíceis de programar. Ou seja, a ideia é o que vale: nem sempre é a complexidade do código que vai tornar o produto mais atrativo. Existem também ferramentas de auxílio: você quer criar um jogo, pode pegar uma ferramenta que te ajuda a criar os esboços, que faz síntese e decodificação de voz humana… tudo isso auxilia muito. Ao mesmo tempo, é necessário haver também pessoas que trabalhem com os códigos mais complexos e com o que a gente chama de sistemas críticos, aqueles em que, se um código estiver errado, pessoas morrem: é avião, airbag de carro… se o computador dá uma mensagem errada, o airbag pode não disparar, o freio pode não funcionar. E sem estas pessoas que trabalham com algoritmos de forma mais complexa, o foguete não vai pra lua nem é possível produzir algo como os carros autônomos da Tesla. 

ESPAÇO CIÊNCIA – Qual o perfil das alunas do curso hoje?

FLÁVIA BARROS – Nós temos três cursos: o de Ciência da Computação, o de Engenharia da Computação e o de Sistemas da Informação. O de Engenharia envolve mais as áreas de cálculo, física… é o pessoal que trabalha com sistemas computacionais embutidos no hardware, o que chamamos de sistemas embarcados. É o curso que tem menor procura feminina.  O de Ciência tem umas cinco meninas por turma e o de Sistemas, que é mais voltado para a parte de gestão e mercado, tem um número maior de mulheres.  Ou seja, as meninas estão fugindo destas áreas que envolvem mais cálculo, tecnologia e Ciências Exatas.

“Mulheres são estimuladas a fazer direito; homens a fazer engenharia. (…) O filho tem um computador novo, passa o dia jogando, e a filha não chega perto”

ESPAÇO CIÊNCIA – O que afasta as mulheres das Ciências Exatas?

FLÁVIA BARROS – O machismo: a ideia de que a mulher é incapaz, de que o cérebro dela é menor, que ela não tem “jeito” para algumas áreas… As próprias famílias acham que o mais longe que as meninas podem chegar é serem advogadas. Então mulheres são estimuladas a fazer direito; homens a fazer engenharia. Eu conheço gente que tem um filho e uma filha. O filho tem um computador novo, passa o dia jogando, e a filha não chega perto. Outra coisa: o ambiente da universidade nem sempre ajuda. A pessoa entra na universidade e, quando chega na turma, às vezes, só tem uma menina. Ela fica só. As vezes não consegue nem montar equipe pra fazer projeto porque os meninos não querem. É um negócio horrível.  Foi por esse motivo que a professora. Carla Silva criou, no fim do ano passado, um grupo de apoio. Foi uma demanda espontânea das meninas, que procuraram a coordenação pra relatar suas dificuldades. Eu faço parte também do grupo, que é uma maneira de acolher as meninas, mas não de estimulá-las a entrar. (ACESSE O SITE DO GRUPO DE APOIO)

ESPAÇO CIÊNCIA – E o que pode ser feito para estimulá-las a entrar?

FLÁVIA BARROS – A gente está planejando uma ação de fazer visitas, conversas e mini palestras em escolas de Ensino Médio: falar do curso, das possibilidades, das oportunidades. Computação é uma área com um espectro imenso de possibilidades: dos sistemas críticos até o aplicativo pra você comprar comida. Há uma diversidade que não consigo ver em nenhuma outra profissão. O ideal seria que houvesse ao menos uma disciplina de computação no Ensino Médio. Se isso acontecesse, eu acho que a dificuldade das meninas ia diminuir muito porque a parte mais introdutória de programação é muito sedutora: você escrever alguma coisa no papel e isso funcionar no computador. Parece uma mágica: você escreve algo e a tela responde… Mas seria muito importante se nossos estudantes de Ensino Médio pudessem ter essas noções básicas.

 

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