O EXEMPLO QUE VEM DO RIO

Primeiro dia de “Simpósio Capibaribe” revela lições que o homem precisa aprender com a natureza

“(…) Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

(…)

Espesso
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu voo”
(Joâo Cabral de Melo Neto / Cão sem plumas)

 

Em seu primeiro dia de realização, o Simpósio sobre o Rio Capibaribe: uma visão interdisciplinar” deixou uma conclusão principal: temos muito a aprender com a natureza. O evento é organizado pela UFRPE, por meio da professora Maria do Carmo Soares, em parceria com o Espaço Ciência e várias outras entidades.

Esse caráter colaborativo ficou evidente na mesa de abertura que, além do diretor do Espaço Ciência, Antonio Carlos Pavão, e da professora Maria do Carmo, contou com representantes da SBPC (nacional e estadual), Facepe, Centro Cultural Brasil Alemanha, Secretaria de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Recife, Pró-reitoria de Extensão da UFRPE, pescadores e estudantes.

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Ação integrada em defesa do todo, planejamento, observação… essas são algumas das lições que o rio revela neste primeiro dia de discussões. O que, em contrapartida, também se mostra é a ação destrutiva do homem, que se sobrepõe até mesmo ao potencial defensivo da natureza.

Na primeira Mesa Temática do evento, sobre “O manguezal, a bacia hidrográfica e o estuário Capibaribe”, Carlos Augusto Schettini, da UFPE, contou como as águas do mar e do rio circulam nos estuários, renovando-se: a água salgada, mais densa, entra; a água doce fica por cima e tende a sair. “O problema é que a cidade ocupou o espaço dos estuários e nele despeja materiais. Com isso, a vazão do rio diminui e a água salgada não consegue circular”. explica Schettini. Os impactos são evidentes: a medida que o rio se afasta da costa, a turbidez aumenta, a oxigenação diminui, afetando a qualidade da água e a biodiversidade.

Os manguezais foram tema das falas de Fernando Porto, da UFRPE, e de Clemente Coelho, da UPE. A lista de serviços prestados por este ecossistema é imensa: exportam matéria orgânica, aumentam a biodiversidade, protegem contra a erosão e estabilizam a linha de costa, regulam a temperatura reduzindo as ondas de calor, servem como filtros biológicos… “Temos manguezais urbanos importantíssimos, como o Parque dos Manguezais Josué de Castro; o Manguezal Jordão; ou o Chico Science – com grande diversidade e arborização intensa. Mas todos eles sujeitos a riscos constantes”, diz Clemente.

Entre estes riscos estão o despejo de esgotos e resíduos e a especulação imobiliária. Para exemplificar o quão devastador podem ser os impactos, Fernando Porto citou o exemplo de Sergipe. Segundo ele, na orla de Aracaju, à medida que a cidade foi crescendo, os manguezais começaram a surgir. “Como se fossem filtros biológicos, eles protegem os rios e mares, aproveitando a matéria orgânica deixada pela cidade. Mas isso tem um limite. Chega uma hora em que os sedimentos soterram o mangue. Foi o que aconteceu em Aracaju”, contou Fernando.

Com a morte do mangue, o mar invadiu a costa com mais força, causando erosão. “Nós temos, no Pina, o maior manguezal urbano da América do Sul. Mas, se não tomarmos cuidado, repetiremos a história de Sergipe. A Via Mangue, por exemplo, foi construída sobre pilares para minimizar os efeitos sobre o mangue. Mas mesmo os pilares retêm sedimentos. E dezenas de pilares têm um impacto imenso. O resultado disso é que o mangue está cada vez mais raso”, informa.

Augusto Guimarães, presidente da Colônia de Pesca Z1, aprendeu tudo isso de forma empírica, longe do meio acadêmico e perto do próprio rio. “Os resíduos deixados no manguezal são como um garrote na veia, que gangrenam o corpo. Os nutrientes não passam e eles estrangulam a planta”, diz. E completa: “A gente não se opõe ao desenvolvimento. Mas tem que disciplinar. As indústrias preferem pagar uma multazinha do que instalar um filtro ou garantir o tratamento da água”.

Para ele, falta planejamento. Os demais complementam: falta a visão do todo e o planejamento a longo prazo. Falta investir no conhecimento e na Ciência – para mapeamento dos problemas e busca de soluções. Faltam políticas públicas de longo alcance, que transformem esse conhecimento em uma ação contínua, de monitoramento e cuidado. 

A tarde foi reservada para apresentação de trabalhos, em sessões orais e de pôsteres. E o primeiro dia de evento fechou com o documentário “Capibaribe: do nascente à foz”, do advogado Canário Caliaris, e recital de “Cão sem plumas”, de João Cabral de Melo Neto.

PROGRAMAÇÃO – Na programação do segundo dia, duas mesas temáticas, além das apresentações de trabalhos: “Direitos da Natureza: os direitos do Rio Capibaribe” e “Revitalização do Rio Capibaribe”. No sábado, 24, Dia do Rio Capibaribe, uma canoata toma as águas do rio, com saída do Marco Zero. Confira a programação:

23 de Novembro de 2018
 
8h às 9h30 Apresentação oral resumosCoordenação: Prof. Dr. Carlos Augusto França Schettini (DOCEAN/CTG/UFPE)
9h30 às 10h30 Apresentação de pôsteres e CaféCoordenação: Prof. Dr. Marcos Antonio Ramos Pereira de Lucena
10h30 às 12h Mesa Temática: Direitos da Natureza: os direitos do Rio CapibaribeModeradora: Profa Dra Helenilda Cavalcanti (FUNDAJ)

Participantes: Profa. Dra. Vanessa Hasson de Oliveira (UNICAP/MAPAS)

Prof. Dr. Fernando Porto (DZ/UFRPE)

Profa. Dra. Luciana Camargo Castro (Consultora)

MSc Alexandre Sávio Pereira Ramos (Presidente do COBH Capibaribe)

12h às 13h30 Intervalo para almoço
13h30 às 15h Mesa Temática: Revitalização da Bacia do Rio CapibaribeModerador: Dr. Marcelo Asfora (Pesquisador da Dipes/FUNDAJ)

Aldo Santos (Diretor de Meio Ambiente da COMPESA)

Anísio Coelho (Presidente do Conselho de Meio Ambiente da FIEPE/PE)

Eduardo Elvino  (Diretor Presidente do CPRH)

Clênio Torres (Diretor em Exercício de Regulação e Monitoramento da APAC)

15h às 16h30 Momento Cultural sobre o Rio Capibaribe;Exposição fotográfica Capibaribes (Advogado Canário Caliaris) e de livros sobre o Capibaribe
16h30 às 17h Sessão de Encerramento com premiação dos melhores posteres
 
 24 de Novembro de 2018 – Dia do Rio Capibaribe
9h Canoata e Barco Escola 

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