3º ENCONTRO DA ABCMC

Participantes se unem pela reconstrução do Museu Nacional e em defesa dos museus como espaço público

Emoção e resistência foram as palavras-chave da abertura do 3º encontro da Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciência (ABCMC). Na mesa-redonda, que deveria celebrar os 200 anos do Museu Nacional, duas certezas foram plantadas entre os participantes. Primeira: o Museu Nacional está vivo. Ele é muito mais que as coleções perdidas e precisa ser reconstruído. Segunda: os museus, enquanto espaço público, estão sob ameaça, e é preciso uma ação forte em sua defesa.

Intitulada “Museu Nacional e os 200 anos de museus de Ciência no Brasil”, a mesa contou com a participação de Alexander Kellner, do Museu Nacional; Paulo Knauss, do Museu Histórico Nacional; Ildeu de Castro, da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência); e Luciana Gorgulho, do BNDES. Para eles, o incêndio no Museu Nacional é símbolo de 200 anos de descaso e a procura de culpados, que vem sendo feita na mídia, esconde o principal: a desvalorização histórica dos museus e a falta de políticas públicas para preservação de nosso patrimônio.

O MUSEU NACIONAL ESTÁ VIVO! – Mais do que um espaço de coleções, o Museu Nacional é um centro de pesquisas e de formação. “Conhecimento não queima! Ainda que o crânio de Luzia tenha se perdido, o conhecimento produzido para reconstrução de sua face permanece  e inspira outras pesquisas e outras iniciativas”, ressaltou Paulo Knauss.

Este foi um consenso entre os participantes: a certeza de que o Museu Nacional está vivo, precisa ser reconstruído e que a participação da sociedade neste processo é fundamental. Em um momento emocionante da conversa, Alexandre Kellner contou que, há uns dias, foi procurado por uma senhora: “Ela me ofereceu uma caixinha cheia de moedas e objetos antigos e me mostrou que a sociedade se importa, sim, com sua memória e  que é o esforço conjunto que vai reconstruir o Museu”.

DESCASO HISTÓRICO – Se a população se importa, o mesmo não ocorre com o poder público. A falta de políticas públicas para preservação dos museus é antiga, mas se agravou com os cortes orçamentários dos últimos anos e com emenda constitucional 95, publicada em 2016 e que estabelece um teto para os investimentos públicos.

Os Museus de Ciência são um retrato disso. Eles vinham em um processo de crescimento, tanto no número de museus como na visitação. Este movimento de progressão parou   em 2014. “Museus importantes foram fechados, como o Estação Ciência, e outros travam uma batalha cotidiana para se manter vivos. As quedas no orçamento de Ciência e Tecnologia são muito preocupantes: o CNPq teve uma redução de mais de 13% no orçamento para o ano que vem; o FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) está com quatro quintos de seus recursos contingenciados.A situação é dramática”, revelou Ildeu de Castro, presidente da SBPC.

O PÚBLICO SOB AMEAÇA – Para  Luciana Gorgulho, do BNDES, as tentativas, feitas por meio da mídia e das redes sociais, de culpabilizar a gestão do museu e da UFRJ pelo incêndio encobrem as verdadeiras causas do acidente, que são antigas e estruturais. Para os participantes do encontro, isso tem como pano de fundo a tentativa de reduzir a função do Estado na preservação dos museus e abrir espaço para a iniciativa privada.

Isso fica evidente com a Medida Provisória recém decretada, que extingue o IBRAM, uma instituição criada com participação social, para criação da ABRAM, agência voltada para participação de financiadores privados . “Ainda precisamos entender melhor o que é essa medida, mas uma coisa é certa: uma decisão como essas não pode ser tomada por meio de Medida Provisória por um governo sem credibilidade”, afirmou Ildeu.

Para Paulo Knauss, não adianta investir R$ 50 milhões para segurança em um museu e, depois, não ter como manter esse cuidado. “O patrimônio precisa de estabilidade. E essa Medida Provisória só aumenta a instabilidade em que vivemos mergulhados”, disse.

A MP representa, para os participantes do encontro, mais uma tentativa de reduzir o papel das instituições públicas e abrir espaço para a iniciativa privada: “Temos os melhores profissionais, os mais competentes, os que lutam todo dia para manter os museus abertos, os que propõem medidas de segurança…”, lembrou Alexander Kellner. Nessa batalha cotidiana entre os esforços das equipes de museus e o descaso do Poder Público, o que ficou evidente foi  a necessidade de uma ação coletiva de defesa dos museus enquanto espaço público.

O Espaço Ciência está participando do 3º Encontro da ABCMC. Além do diretor do Museu, Antonio Carlos Pavão, estão presentes Claudiane Santos, da Secretaria Executiva; Roberta Cristina, da Gerência de Programas; e Fabiana Coelho, da Assessoria de Comunicação. Uma apresentação oral sobre a ação itinerante do Espaço Ciência e sessão de pôster sobre a experiência do Museu com a Semana da Água compõem a programação. SAIBA MAIS SOBRE O ENCONTRO

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