Zeferino Rocha

(1928 – 2016)
Psicanalista
Homenageado em 2017

Zeferino de Jesus Barbosa Rocha nasceu no dia 26 de agosto de 1928, na cidade de Escada, Pernambuco. Originário de família de tradição católica, Zeferino, incentivado por sua mãe, tornou-se seminarista muito jovem, seguindo assim, desde a adolescência, sua vocação para ser Padre, vindo a concluir sua formação eclesiástica em Roma, na Itália.

Sua notável inclinação para o campo das ciências humanas revelou-se, desde cedo, pelo seu pioneirismo e talento de ter concluído, com apenas 19 anos de idade – mesmo em condições adversas do período pós-segunda guerra mundial –, o Bacharelado em Filosofia, em 1947, pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, distinguido de forma brilhante com Medalha de Ouro (summa cum laude probatus), láurea máxima concedida ao aluno que se destacava em primeiro lugar no curso.

No ano seguinte, concluiu o Mestrado em Filosofia, na mesma Universidade, com láurea de Medalha de Prata (magna cum laude probatus). Somente após consolidar sua formação no campo da Filosofia, Zeferino Rocha concluiu seus estudos de Teologia, na mesma Instituição, finalizando o Mestrado em 1952 e, no mesmo ano, foi ordenado Padre pela Igreja Católica Apostólica Romana, na Basílica de São João de Latrão, em Roma.

Retornando a Pernambuco, o jovem padre vincula-se à Faculdade de Filosofia do Recife (FAFIRE), aos 26 anos de idade, lecionando a disciplina História da Filosofia, e passa a atuar como professor de Filosofia e de Teologia no Seminário Maior de Olinda e no Seminário Regional do Nordeste.

Exercendo a sua missão de sacerdote na Arquidiocese de Recife e Olinda, desenvolveu atividades como assistente de movimentos de Ação Católica, no setor da JEC – Juventude Estudantil Católica, e tornou-se, aos 31 anos, o padre Reitor do Seminário Menor da Imaculada Conceição da Várzea, no Recife.

Sua atuação como Reitor e professor do Seminário destacou-se pela introdução de novas disciplinas na formação dos
seminaristas, criando ações e grupos de estudos voltados para temas da fronteira da filosofia e da teologia, incentivando o culto à leitura dos poetas brasileiros e o lazer para a socialização dos seminaristas.

Zeferino Rocha atuou como perito ad hoc de Dom Helder Câmara no Concílio Vaticano II, em Roma, em 1965, e foi por Dom Helder incentivado a dar continuidade à sua formação pós-graduada, no campo da Psicologia, indo para a França, onde tomou a decisão de renunciar ao presbiterato.

No período de 1968 a 1973, durante a sua formação psicanalítica na Associação Psicanalítica da França, realizou o Doutorado em Psicologia pela Faculdade de Letras e Ciências Humanas da Universidade Paris X – Nanterre, apresentando a tese intitulada: L’interprétation freudienne du phénomène religieux.

Ainda nesse período de sua formação, Zeferino Rocha lecionou o curso de Introdução à Psicanálise na conceituada Universidade Paris V – René Descartes, nos anos de 1970 a 1973. Retornando ao Brasil, passou a exercer o cargo de docente e pesquisador do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no qual realizou substancial parte da sua carreira científica, iniciada em 1974 e concluída como Professor Titular, em 1995, quando se aposentou.

Após sua aposentadoria na UFPE, o Professor Zeferino ingressou, em 1999, na Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), atuando como docente e pesquisador do Programa de Pós-Graduação (Mestrado e Doutorado) de Psicologia Clínica, responsável pela linha de pesquisa Psicopatologia Fundamental e Psicanálise, desenvolvendo suas atividades acadêmicas até 2014.

O Professor Zeferino Rocha atuou como revisor e membro do Conselho Editorial e Científico de diversos jornais científicos e revistas, tais como: Ágora Filosófica (UNICAP, Recife); Symposium (Recife); Revista Ágora – Estudos em Teoria Psicanalítica da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ); Pulsional – Revista de Psicanálise (São Paulo); Revista Psychê (São Paulo); foi autor de artigos científicos publicados na Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental (São Paulo) e na Síntese – Revista de Filosofia (São Paulo), dentre outras.

Fundou e foi homenageado com o título de Membro Honorário do Círculo Psicanalítico de Pernambuco (CPP) e integrou, como representante da UNICAP, a Comissão de Mérito do Memorial Notáveis Cientistas de Pernambuco, criado pela ALEPE por meio da Lei estadual nº 13.176, de 28/12/2006, Comissão esta que, por decisão unânime de seus membros, outorga-lhe a presente homenagem, distinguindo-o como um dos três Notáveis Cientistas de Pernambuco de 2017.

Sua produção científica reúne importantes contribuições originais e genuínas no campo da Psicologia, sob a perspectiva do diálogo entre a Psicanálise e a Filosofia. Escreveu numerosos ensaios que passam por conceitos de Heráclito, Platão, Aristóteles, Nietzsche, Freud, Heidegger, Lacan, Merleau-Ponty, Ricoeur, dentre outros.

Zeferino escreveu 10 Livros, sendo os três últimos: Ensaios Psicanalíticos em Interface com a Filosofia, publicado pela Cepe – Companhia Editora de Pernambuco, em 2016; O Desejo na Grécia Antiga, pela Editora Universitária da UFPE, em 2011, e Freud entre Apolo e Dionísio: recortes filosóficos, ressonâncias psicanalíticas, publicado pela Edições Loyola, UNICAP, São Paulo, em 2010.

Sua produção científica conta ainda com a publicação de 70 artigos completos em periódicos; 135 trabalhos publicados sob a forma de capítulos de livros, resumos em anais de congressos, além de várias conferências proferidas.

Zeferino contribuiu de forma expressiva na formação de estudantes, tendo orientado trinta e um Mestres e três Doutores, além de ter participado como membro de inúmeras bancas examinadoras de mestrado, doutorado e concursos públicos.

Zeferino Rocha, pelo conjunto de sua obra, revelou-se um pensador moderno de grandes questões da existência humana, como a angústia, a dor, a ilusão, o desamparo, a depressão, o amor, o cuidado, dentre outras manifestações inerentes ao ser humano, sempre, e de forma generosa, compartilhando seu monumental saber, como psicólogo, teólogo, filósofo e psicanalista, com seus alunos e orientandos ou com aqueles que o procuravam desejando aproximar-se de sua presença sensível.

Zeferino era acima de tudo um homem profundamente culto, simples, solidário e generoso. Quem teve o privilégio de conhecê-lo em vida, certamente, concordará com esta afirmação.

O Professor Zeferino Rocha faleceu aos 87 anos, no dia 31 de julho de 2016, na cidade de São Paulo. Do seu primeiro casamento deixou três filhas, Katia, Ivana e Vera, e três netos, Pedro, Maria e Francisco. Realizou o segundo matrimônio com Ana Rosa Lehmann Carpzov Rocha, sua esposa e amiga de todas as horas, ao longo de trinta anos.

Zeferino deixa para as gerações vindouras de pensadores e cientistas brasileiros, o precioso legado de exemplo de vida galgado na solidariedade e na dedicação à ciência, como formas de atingir a plenitude da existência humana.

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