Adonis Reis Lira de Carvalho

(1928 – 2014) Médico Patologista Homenageado em 2015
Série Sinopses Biográficas

Nascido em Recife, em 6 de janeiro de 1928, Adonis Reis Lira de Carvalho é filho de um comerciante e imigrante português, Joaquim Correia de Carvalho, com uma pernambucana, Constância Lira de Carvalho. Era o primogênito entre 4 irmãos – incluindo a irmã Ástrea, que faleceu aos 9 anos por diabetes –, Joaquim Correia de Carvalho Junior e Rossini Lira de Carvalho.

Seu desejo em se tornar médico surgiu ainda na infância pela vontade de curar sua irmã. Cursou o primeiro e segundo graus no Colégio Leão XIII e no Colégio Oswaldo Cruz. Ingressou na Faculdade de Medicina do Recife em 1945, aos 17 anos, recebendo influência dos professores Mário Ramos, Aluizio Bezerra Coutinho, Arnaldo Marques, Ruy João Marques e Joaquim Cavalcanti. Foi Acadêmico Interno da Cátedra de Clínica Propedêutica Médica até sua formatura e plantonista do Hospital do Pronto-Socorro, classificado em primeiro lugar em ambos concursos.

Presidiu a Sociedade de Internos dos Hospitais do Recife em 1950. Concluiu o curso médico em 1950, como aluno laureado, o que lhe valeu os prêmios Raul Leite e Diário de Pernambuco. Após a colação, foi contemplado com bolsa de estudos pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no serviço de Gastroenterologia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), onde também frequentou o Departamento de Anatomia Patológica. Ao retornar, foi designado Assistente Voluntário da Clínica Propedêutica Médica e, paralelamente, assistia e auxiliava necropsias na Cátedra de Anatomia Patológica, regida pelo Prof. Raimundo de Barros Coelho.

Em 1952 ingressou na Cadeira de Anatomia Patológica da UFPE como Prof. Assistente Voluntário e no Serviço de Verificação de Óbitos, sendo nomeado efetivo em 1954. Em 1953, assumiu o cargo de Prof. Assistente na Disciplina de Patologia Geral da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Pernambuco (UPE).

Ainda em 1954, foi selecionado para uma bolsa de estudos do Institute of International Education (New York), no M. D. Anderson Hospital, da Universidade do Texas, Houston (EUA), tendo recebido grande influência de Dr. Alvan G. Foraker.

Ao regressar ao Brasil, defendeu a sua primeira Tese de Livre Docência em Anatomia Patológica. Pouco depois, aos 27 anos, foi convidado a integrar a Clínica de Câncer de Pernambuco – hoje Hospital de Câncer de Pernambuco (HCP). Em 1958 conseguiu estabelecer o Departamento de Patologia do HCP, o qual foi responsável pela formação e treinamento de patologistas, técnicos e médicos residentes de várias procedências do País. Através do Prof. Adonis esse hospital foi pioneiro no exame intraoperatório, em 1954, na informatização do banco de dados no início dos anos 80 e na introdução do exame imunoistoquímico, anos depois.

Na UFPE, Adonis criou a Divisão de Patologia Cirúrgica, na Cadeira de Anatomia Patológica, formalizada em 1958, introduzindo as descrições sistemáticas das peças cirúrgicas. Em 1957, criou o Registro de Câncer de Pernambuco, o primeiro com base populacional no Brasil e cujos dados foram publicados internacionalmente em 1982.

Em 1959, foi bolsista no Royal Marsden Hospital, em Londres. No seu regresso, iniciou pesquisas em Patologia Experimental, que resultaram na tese de sua segunda Livre Docência, para a Cadeira de Patologia Geral, dirigida pelo Prof. Aluízio Bezerra Coutinho.

Entre os anos de 1962 a 1967, fez parte da comissão que elaborou o Volume II da série Histological Typing of Tumors, da Organização Mundial de Saúde. De 1969 a 1974, assumiu a Cadeira de Cancerologia da UPE. Desse período, destacam-se as publicações e conferências sobre linfomas, cuja repercussão o fez membro do Committee on Geographical Pathology da Union International Contre Le Cancer (UICC), a qual prestou serviços durante quatro anos.

Em 1971 foi eleito para a Vice-Presidência da Sociedade Latino-americana de Patologia (SLAP), na Venezuela. Eleito Presidente dois anos depois, realizou em 1975, em Recife, o X Congresso Latino-americano de Patologia/ XI Congresso Brasileiro de Patologia / IX Congresso Brasileiro de Patologia Clínica. Em 1971, foi Visiting Professor no MD Anderson Hospital, EUA. Ainda nessa década, tornou-se um dos componentes do Breast Tumor Study Group da UICC, em Bethesda, que revisou a classificação dos tumores da mamae, dos tumores do testículo e ovário.

Criou e coordenou o primeiro Curso de Especialização em Anatomia Patológica da UFPE, entre 1972 e 1974, que antecedeu a criação da Residência Médica. Em 1973, fundou o Programa de Pós-Graduação em Anatomia Patológica da UFPE, o primeiro da área a ser reconhecido pelo Conselho Federal de Educação.

Pela criação da área da Concentração em Patobiologia no Programa, o Prof. Adonis abriu um novo campo para todos os outros profissionais da área de saúde. Realizou trabalhos em colaboração com a International Agency for Research on Cancer (IARC), OMS, em Lyon, França, no projeto sobre Carcinogênese do Colo Uterino e do Pênis. Comandado pela epidemiologista Núbia Muñoz, este resultou na descoberta do HPV como principal causa do câncer do colo uterino.

Em 1974, foi eleito Membro da Academia Pernambucana de Medicina. Participou do Conselho Universitário da UFPE em vários mandatos, totalizando 20 anos de exercício. Foi Presidente do Conselho Regional de Medicina de PE, de 1978 a 1981.

Pela sua atuação na Sociedade Brasileira de Patologia (SBP), na Sociedade de Medicina de Pernambuco e na Sociedade Brasileira de Cancerologia (SBC), recebeu, respectivamente, o título de Sócio Emérito, a Medalha do Mérito Maciel Monteiro e o título de Sócio Honorário.

Foi Presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, de 1994 a 1997, o primeiro patologista no cargo. Adonis foi eleito Vice-Presidente para a América do Sul da International Academy of Pathology (IAP), em 1976, em Washington DC, EUA, sendo reeleito em 1978 (Jerusalém); 1980 (Paris) e 1981 (Sidney).

Em 1977 recebeu o título de Admiral in the Texas Navy, pelo Governo do Estado do Texas, EUA. Após 8 anos de trabalho, foi eleito Presidente da IAP em setembro de 1984, em Miami, EUA. Foi o primeiro Presidente não norte-americano e não europeu a ocupar o cargo. Em 1998, recebeu da IAP, a mais alta premiação da instituição, IAP´s Gold Meda. Em 2014, a IAP patrocinou uma Jornada Internacional, em Buenos Aires, Argentina, a ele dedicada in memoriam, tendo publicado uma homenagem em seu News Bulletin.

Foi membro da Academia Brasileira de Médicos Escritores e da Sociedade Regional de Pernambuco. Em 1985, tornouse Professor Titular do Departamento de Patologia da UFPE, após concurso público de provas, títulos e defesa de tese. Neste ano, recebeu título de Membro Honorário da Sociedad Espanhola de Anatomia Patológica e foi Professor Visitante da Universidade de Keyo, Tóquio.

Em 2000, foi-lhe outorgado o título de Professor Emérito 142 Ciências Biológicas e Saúde pela UFPE e, em 2014, o de Acadêmico Emérito in memoriam pela Academia Pernambucana de Medicina. Foi membro dedicado da Academia Pernambucana de Ciências. Seu entusiasmo pela vida acadêmica e pela UFPE fez com que permanecesse em atividade até os 70 anos. Ao HCP, dedicou 59 anos de sua vida.

Casou-se em Recife, em 7 de novembro de 1953, com Cecy do Rêgo Maciel, tendo dois filhos: Maria do Carmo e Marcus Joaquim. A primeira seguiu a carreira do pai, de médica e patologista e seu filho é historiador, com pós-graduação nos EUA, e Professor Titular de História da UFPE, por concurso público.

Adonis foi um esposo, pai, avô e bisavô muito querido, admirado e presente. Tinha grande liderança entre os estudantes e, nos anos da Ditadura Militar, representou uma voz libertária na Universidade. Foi Professor Homenageado e Paraninfo em diversas ocasiões. Sem vinculações político-partidárias e apenas levado por seu senso de justiça e humanidade, Adonis tomou várias atitudes corajosas para a época, como visitas a presos políticos e o acolhimento clandestino em sua casa de um jovem, depois incluído na lista dos desaparecidos.

Nesse período atendia gratuitamente a população carente na sua residência no bairro da Caxangá. No âmbito privado, fundou o Laboratório de Patologia Adonis Carvalho. Faleceu em Recife, em 12 de fevereiro de 2014. Adonis foi formador de gerações de patologistas em Pernambuco e em outros estados no Brasil e contribuiu de forma decisiva para o desenvolvimento do ensino e da Medicina Diagnóstica de Pernambuco.

A criação do Registro de Câncer foi fundamental para a modificação nos conceitos do Ministério da Saúde à época, cuja atenção estava voltada para as doenças infecciosas. Pelo seu grande destaque internacional, Prof. Adonis divulgou o nosso Estado e País no âmbito científico-internacional.

Contribuiu em pesquisas fundamentais para o conhecimento universal com benéficos direto para a humanidade, como àquelas lideradas pela epidemiologista Núbia Muñoz e colaboradores, que resultaram na descoberta do vírus do papiloma humano (HPV) como causa do câncer cervical.

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