Ricardo de Carvalho Ferreira

(1928 – 2013) Químico Teórico Homenageado em 2014
Série Sinopses Biográficas

ricardo-ferreiraRicardo de Carvalho Ferreira nasceu em Recife, em 16 de janeiro de 1928. Filho de Antônio Ferreira, um representante comercial, e Luiza de Carvalho Ferreira, professora do segundo grau. Desde sua infância, Ricardo se interessava por literatura e investigação científica. Na adolescência, estimulado pelo pai, costumava ler tudo o que chegava em suas mãos, fase em que passou a ter certa predileção por Monteiro Lobato, Eça de Queiroz e Euclides da Cunha.

Durante sua formação escolar secundária em 1942, Ricardo teve Dr. To1entino de Carvalho e Dr. Newton Maia, respectivamente, como seus professores de Física e Matemática, os quais exerceram uma influência acentuada sobre a sua formação básica. Ao mesmo tempo, Ricardo havia começado a ler revistas científicas e livros como: The Birth and Death of the Sun, de Gamow, e The Mysterious Universe, de James Jean.

Na época foi presentado por David B. Moore, um inglês amigo de seu pai, com uma assinatura do famoso periódico Nature. Isso foi em 1945, o ano da bomba atômica e Ricardo já como aluno do curso superior, fazia a disciplina de físicoquímica ministrada pelo Dr. Hervásio G. de Carvalho.

Também participou de duas palestras notáveis sobre a energia nuclear proferidas por este cientista. Naquela época, ou um pouco antes, ele tinha como seu amigo, Ruy Maia, e montou um laboratório de química em sua pequena casa, que confirmou sua inclinação para a química.

Notavelmente, Ricardo Ferreira publicou seu primeiro trabalho quando tinha apenas 19 anos de idade. Em 1952, quando terminou o seu curso de graduação em química na Universidade Católica de Pernambuco, ele já havia publicado 8 artigos científicos.

Neste período, vale a pena destacar seus artigos, Acidity and the Systems of Acids and Bases e Sur l’Inexistência de l’Ion Perbromique, publicados, respectivamente, no Journal of Chemical Physics (1951) e no Bulletin de la Societé de Chimie, França (1950).

A atividade ótica foi o seu primeiro interesse no estudo de biofísica molecular. No início dos anos 50, ele publicou na Nature seu artigo Resolution of the Racemic Mixture by Symmetric Agents (Nature 171, 30,1953). Nos anos seguintes, entre 1964 e o ano 1971, como professor visitante da lndiana Universit e da Columbia University, assim como professor de química no Earlham College, ele começou a ocupar-se mais sistematicamente com temas sobre a ligação química e sobre outros vários problemas relacionados com a atividade ótica de moléculas de interesse biológico.

Parte dos resultados obtidos não foram publicados na literatura especializada da época, mas estão registrados em suas intensas correspondências científicas. Trata-se de um assunto atual e de extremo interesse para o entendimento da evolução molecular e a biogêneses. Seu interesse na Teoria da Evolução o levou a escrever o livro Henry Walter Bates e a Teoria da Evolução, publicado pela Editora da Universidade de Brasília.

O seu envolvimento com essas ideias mostra o pioneirismo químico e a intuição física de Ricardo Ferreira. Desde os anos 1970 Ricardo Ferreira publicou mais de 20 artigos sobre atividade enzimática, sobre a estrutura e evolução das hemoglobinas, sobre evolução molecular e biogêneses, além de ter orientado teses de doutorado em biofísica molecular.

Ainda nas décadas de 1960 e 1970, um grande número de seus artigos foram publicados sobre o conceito químico da eletronegatividade dos átomos, sobre moléculas, fases metálicas e sobre o caráter da ligação química do ponto de vista da teoria dos orbitais moleculares, como também orientado várias teses e dissertações nessas linhas de pesquisa.

É interessante notar que na extensa lista de contribuições de Ricardo Ferreira não há escala privilegiada de dimensões físicas das estruturas moleculares. Encontramos obras que lidam com as espécies H2 em campos magnéticos intensos, os biopolímeros como as hemoglobinas, serinoproteases e os ácidos nucleicos, passando por toda uma gama de sistemas intermediários como os compostos de boro, compostos de flúor, cloro e bromo, os complexos de mercúrio e de íons terras raras.

Ao longo de sua carreira acadêmica Ricardo Ferreira passou a ser considerado cientista e professor, que trouxe para o Brasil a Química Quântica. Isso criou um fator multiplicativo extraordinário, como pode ser atestado pelos seus ex-alunos em todo o país.

Devido ao valor da sua produção científica e atuação acadêmica, uma intensa correspondência com vários cientistas de outros países foi por ele mantida. Foi convidado para participar de inúmeras 50 Ciências Exatas, da Terra e Engenharias conferências nacionais e internacionais, e muitas vezes para apresentar conferências plenárias.

Por isso Ricardo Ferreira foi atuou colaborando como pesquisador/ professor associado em várias instituições de pesquisa e ensino no Brasil e em outros países, tais como: o Instituto de Tecnologia da Califórnia, Universidade de Indiana, Universidade de Columbia e Earlham College, nos Estados Unidos, l’Université de Genève e da Universidade de Oxford na Europa; e, no Brasil, nas instituições: Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, Universidade de São Paulo, e Universidade de São Carlos.

A carreira acadêmica e de pesquisador de Ricardo foi toda vinculada e desenvolvida até sua aposentadoria, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), da qual recebeu o título de Professor Emérito. Entre suas honrarias acadêmicas e funções relevantes devemos mencionar: Membro da Academia Brasileira de Ciências eleito em 1977, Membro da Academia de Ciências do Estado de São Paulo desde 1980, Honorary Fellow, Magdalen College de Oxford em 1975, Membro do Conselho Editorial dos periódicos Ciência Hoje, Ciência e Cultura, Inorganica Chimica Acta, e da conceituada e moderna revista Química Nova, que lhe dedicou um número especial por ocasião de seus 60 anos, com um artigo de abertura escrito por Linus Pauling, detentor dos prêmios Nobel de Química de 1954 e Nobel da Paz em 1962; foi presidente da Sociedade Brasileira de Química, membro do Comité Consultivo de Química do CNPq, no período de 1976 a 1977, e do Conselho Consultivo Técnico Científico do CNPq, de 1984 a 1985.

Como reconhecimento de sua brilhante carreira Ricardo Ferreira recebeu em vida várias homenagens, prêmios e honrarias acadêmicas, ou sejam: Prêmio RheinboldtHauptmann, concedido em 1988 pela Universidade de São Paulo; em 1995 conquistou o prêmio Almirante Álvaro Alberto, concedido pelo CNPq e a medalha da Ordem Nacional do Mérito Científico, categoria Grã-Cruz, concedida pelo Presidente da República; recebeu em 1977 a medalha Simão Mathias da Sociedade Brasileira de Química; e os títulos de Doutor Honoris Causae, concedidos pelas Universidade Federais, de Alagoas, em 2001, e do Rio Grande do Norte, em 2006.

Ricardo com sua liderança científica nacional e internacional, desempenhou papel crucial na consolidação do grupo de pesquisa que originou o atual Departamento de Física e foi o incentivador e principal fundador do Departamento de Química Fundamental, ambas unidades acadêmicas da UFPE.

O legado deixado por Ricardo Ferreira para a ciência no Brasil e a formação de recursos humanos, em particular em Pernambuco, além do seu espírito profundamente humanista e de sua consciência política, são de valores inestimáveis. Sua intensa atividade científica e sua obra são exemplos para todos os futuros acadêmicos.

No plano estadual, em reconhecimento a essa singular contribuição de Ricardo Ferreira a Pernambuco, o Conselho Superior da FACEPE em 2014, por ocasião dos eventos em comemoração do jubileu de 25 anos de sua criação, instituiu o prêmio intitulado: Prêmio Ricardo Ferreira ao Mérito Científico, promulgado pelo Governador através do Decreto Estadual, nº 41.383, de 19/12/2014.

No plano nacional, a relevância do legado deixado por Ricardo à ciência brasileira, foi reconhecido post mortem pela CAPES (em parceria com a fundação paulista Conrado Wessel), ao homenageá-lo nominando para o ano de 2016: Grande Prémio Capes de Tese Ricardo de Carvalho Ferreira, ao concurso de melhor tese de doutorado defendida em 2015, nas áreas das Engenharias, Ciências Exatas e Multidisciplinares – Materiais e Biotecnologias.

Em julho de 2012 o asteroide 2002 FR1 foi denominado Ricardoferreira em sua homenagem. Em 1882 o asteroide 223, denominado Rosa, havia sido descoberto por Johann Palisa. Rosa Maria, mãe de seus quatro filhos (Rejane, Ricardo, Roberta e Rebeca), falecida poucos anos antes do seu falecimento, foi sua eterna companheira e amiga. E como se vê Ricardo e Rosa voltaram a se encontrar no Cosmos, sobre o qual ele tanto gostava de conversar.

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